COMO FUNCIONA

Este blog foi criado num Domingo chuvoso daí www.domingoamigo.blogspot.com/!

Pensando em leitores que não se animam a manter um blog pessoalmente, e os bloggers, que desejosos de atingir outros leitores, além dos seus habituais, gostariam, vez por outra, de postar num blog COLETIVO, criamos a SOCIEDADE ANÔNIMA, onde você poderá postar, sempre que tiver vontade!

Para fazer parte dos AUTORES do blog basta escrever para: cimitan@terra.com.br, solicitando sua inclusão, como membro do SOCIEDADE ANÔNIMA. Mande seu nome, e endereço de e-mail, para ser registrado. Só não pode deixar de assinar seus posts! E será responsabilizado pelo seu conteúdo.

A gerência se reserva ao direito de excluir o participante cujo comportamento não for condizente com o do grupo.

10.8.14

O mundo agora é dos aplicativos.


Eles chegaram para ficar. Com a democratização das novas tecnologias, sobretudo aquelas que estão acopladas aos celulares, ter um ou vários aplicativos instalados significa estar antenado com as mudanças do mundo tecnológico. Rapidez, praticidade e pouco espaço para instalação, são critérios preliminares que levam muitos usuários a experimentar essa novidade. Além disso, fatores como curiosidade e modismo também atraem pessoas para esse universo. Desde coisas triviais a outras de cunho pessoal, os APPs modificaram a relação das pessoas com o mundo a sua volta. Entretanto, o contato demasiado com esse tipo de tecnologia tem trazido diversos problemas para aqueles que não tem limites na rede. Sem uma dosagem, nesse sentido, cresce em várias partes do mundo locais especializados em tratar quem ultrapassa a linha da moderação e se entrega ao vício virtual.

Não é difícil de encontrar alguém conectado à internet com um celular. Em casa, no trabalho ou na rua, a naturalização desse ato tem se tornado comum que poucos são aqueles que conseguem enxergar um problema nisso. No entanto, a banalização dessa visão é o primeiro dos muitos problemas que surgiram com a popularização dos aplicativos nos celulares. Sem dar uma devida importância a esse assunto, indivíduos de faixas etárias diversas foram fisgados pelo mundo virtual e, paulatinamente, foram se desconectando do mundo real. Pessoas diversas que, muitas vezes, não interagem mais com amigos e familiares frente à frente, preferindo o contato cibernético, como se houvesse uma barreira que impossibilitasse a interação tradicional. 

Dentre tantos, os jovens são, sem dúvida, os mais hipnotizados pelas novidades tecnológicas. Nascidos numa era onde as brincadeiras são substituídas pelo computador, muitos já trazem os sinais dessa problemática. Entre as características mais frequentes estão o isolamento, já que é quase impossível ficar sem um computador ou celular. Eles se tornam mais arredios e propensos a depressões quando algo possa ameaçar seu novo modelo de vida. Fora de casa, geralmente no colégio, muitos são desconcentrados, perdidos, o que dificulta p aprendizado e a formação intelectual. Para completar esse quadro, ainda tem as redes sociais que agora também estão em formas de aplicativos para prender mais ainda a juventude nesse universo. Sem esquecer, é claro, dos jogos virtuais, que agora estão mais convidativos do que nunca.

No entanto, mesmo os adolescentes sendo os principais alvos dessas novidades, isso não quer dizer que adultos estejam imunes a elas. Pelo contrário, basta uma pequena busca nos inúmeros aplicativos de paquera existentes para comprovar que muita gente bem grandinha também usufrui desses novos recursos. A prova é tanta que na última copa do mundo, que aconteceu aqui no Brasil, APPs de pegação, hétero ou gay, tiveram picos de acessos no período futebolístico. A intenção desses recursos se assemelha às redes sociais existentes, onde a exposição de perfis, muitas vezes falsos, e a busca por reconhecimento de outras pessoas seja concretizada. O que muda, um pouquinho, é o teor sexual que alguns aplicativos possuem. Neles, pessoas descartam e são descartadas num simples deslizar de dedo pela tela do celular. É como se o ser humano se tornasse um Menu e quem está do outro lada escolhe se quer ou não comer aquele prato.

Além disso, há os fadados perigos da exposição virtual. Semelhante às tradicionais redes sociais nesse sentido, muitos aplicativos expõem duplamente quem tem conta em suas páginas e quem acessa tais páginas. Segredos são revelados, pessoas que no cotidiano tem uma conduta X, na net exibem outra Y, sem contar aqueles que aproveitam para cometer crimes virtuais contra quem se deixa amostra de mais na rede. Para quem exerce esse tipo de conduta, basta uma breve pesquisada para comprovar outros males do uso excessivo dos meios tecnológicos. Entre tantos, a mecanização humana é a principal. De tanto estar conectados, muitos começam a fazer parte da máquina, ou, se tornam semelhantes a ela.

Evidentemente que tudo isso não coloca os aplicativos e suas funcionalidades na berlinda. Muitos deles são extremamente úteis na sociedade caótica atual. Desde mecanismo para escapar do trânsito, passando por dicas diversas, curiosidades, entre outros. Sem esquecer que tais mecanismos foram criados para facilitar a vida das pessoas, com uma linguagem fácil e de fácil manuseio. Diante de tudo isso, talvez o erro não esteja na tecnologia, nem tão pouco nas novidades que ela proporciona, mas na falta de educação em torno do seu uso. Sem uma consciência sobre como se deve utilizar os recentes meios tecnológicos, os indivíduos ao invés de dominarem passam a ser dominados pela própria criação, o que resulta numa sociedade doente em vários sentidos.

Após diagnosticado isso, em alguns casos, quando a compulsão alcançou o limite máximo, resta apenas a internação em espaços especializados no tratamento de quem sofre de compulsões virtuais. Mas, o que fazer quando esse problema não é identificado no tempo certo? Por ser uma problemática tão moderna quanto as inovações em torno dela, fica difícil precisar o momento exato do qual uma pessoa está “doente” virtualmente falando. Embora o empirismo da questão possibilite que certos diagnósticos sejam realizados, é necessária maior atenção para os sinais mais comuns como isolamento, depressão, temperamento arredio, necessidade extrema de adquirir novas tecnologias, horas e horas conectado na internet, entre outros. Tarefa que parece simples, mas não é, pois muitos apresentam um ou mais caraterísticas das citadas há pouco.

Enquanto nada é feito, novos aplicativos surgem e aprisionam as pessoas. Sua facilidade e praticidade são inquestionáveis, embora sua funcionalidade nem sempre seja necessária. Entretanto, não há motivo para alarmes. A sociedade pode reverter essa cultura conectada e tentar equilibrar o tempo na rede com o da vida real. Também não é sensato afirmar que tais mecanismos devem ser banidos do dia a dia, apenas porque muitos não aprenderam a utilizá-los corretamente. Feliz ou infelizmente, a tecnologia veio para ficar e junto dela os benefícios e malefícios, porém o que falta é maior discernimento das pessoas para utilizar as benesses da tecnológicas sem abusos. Ai é que reside o problema, pois numa era onde o consumo dita regras, parece que o mundo é dos aplicativos e ao homem restou se curvar diante disso, comprando o novo smartphone do momento, para não ser de vez excluído da terra. 

29.6.14

Ir tomar no cu é ruim pra quem?



Sempre que escuto a expressão “vai tomar no cu” me pergunto o porquê de tamanha afetação. A rigor, a intenção de quem direciona essa frase a alguém consiste em reduzir o alvo a nada. Ou melhor, a merda, visto que este último representa a extensão do ânus, codinome cu, por onde sai tal excremento. Mesmo sendo usado como palavrão, nem sempre quem recebe essa ofensa se sente incomodado. Certa vez ouvi que o problema não é a palavra, mas sim o tom que ela é proferida e a quem se destina. Nesse sentido, sinto que ao mandar alguém tomar no cu, de forma agressiva e por vezes deliberada, estamos perdendo tempo, pois em muitos casos não é uma ação negativista. Se caso fosse tão ruim tomar nessa região do corpo, o Brasil e o mundo não estariam repleto de homens e mulheres dispostos a se entregar ao deleite desse orifício.
Símbolo democrático mundial, o cu é uníssono. Está em toda a humanidade e é vital para a sua existência. Como o homem sempre buscou meios de satisfazer seus prazeres sexuais, muitas vezes transgredindo regras morais, sociais e religiosas, e até reconfigurando a funcionalidade do seu corpo, o cu ganhou outras dimensões e usos. Como é sabido, ele serve, a priori, como veiculo de eliminação dos nossos alimentos, por meio do nosso aparelho digestório. Entretanto, a humanidade atribuiu a ele o status sexual, do qual boa parte dos nossos desejos é concretizada. E por mais que se tenha criado uma cultura de nojo ou repulsa em torno dele, não podemos negar que há muitas vezes nesses discursos um quê de hipocrisia, visto que na cama, tal região é cobiçada como se fosse um manjar dos deuses.
No Brasil, por exemplo, mandar alguém tomar no cu é de uma indecência sem medida. Eu diria até que de uma burrice imensurável. Num país onde as mulheres são glorificadas e tem suas bundas esquartejadas do resto do corpo, parece que aquele palavrão é dito em vão. Principalmente porque por aqui o corpo é corporificado, e por isso reduzido a bunda. Ela é, na realidade, o eufemismo do cu. Não dizemos que ele, o cu, é o símbolo cultural brasileiro (assim como a cerveja, o samba, o carnaval, etc.), porque fomos educados a sermos eufêmicos nesse sentido, e por esta razão, mentirosos. Trocando o cu pela bunda, mantemos essa mentirinha perversa que enaltece o todo e vulgariza a parte. Essa metonímia soa incongruente visto que, no seu íntimo, o brasileiro quer o cu, deseja ele, anseia por descobri-lo, prova-lo, rompe-lo, portanto, num ato de “desfuncionalizar” sua atividade primaria.
Você deve estar se perguntando por que nesse texto eu não fui mais eufêmico utilizando a palavra ânus no lugar de cu. Simples, para naturalizar o que já é natural. Às vezes os eufemismos são interessantes porque suavizam coisas que precisam ser levemente ditas para não macular a integridade do outro. Entretanto, quando se trata do cu em questão, os eufemismos são desnecessários, pois não há agressão em dizer algo que já está inserido na nossa rotina e nosso corpo há tanto tempo. Talvez o problema não esteja na palavra, nem no seu bom ou mau uso, mas na entonação dada a ela. É por isso que outros palavrões, derivados do cu como “vai se fuder”, soam mal, porque são ditos bruscamente em situações onde imperam a violência. Em outros contextos, ditos de outras formas, ele soa tão delicado como receber uma rosa. Também não há problema em se pronunciar cu. O perigo reside quando não cuidamos do nosso e queremos dar pitado no dos outros, como se o nosso fosse imune a algo ou tivesse alguma diferença especial.
E não há pecado ou ojeriza que pormenorize tal ato. Quando o homem ainda era primitivo, ao acasalar-se com outros de sua espécie, não verificava se era homem ou mulher, se havia ânus ou vagina. Ele simplesmente se lançava em cima do outro para saciar suas vontades, independente do orifício que iria ser adentrado. É por isso, também, que a aversão aos homossexuais denota incoerência. Muito antes da ideia da homoafetividade, antes mesmo do racionalismo humano criar forma, nossos antepassados cruzavam-se sem o ostracismo em torno dos papeis de gênero masculinos e femininos. Ou seja, se a sociedade atual, repleta de preconceito contra os gays, tivesse mais um pouquinho de conhecimento, saberia que a prática anal não se limita só aos gays.
Ainda sobre essa questão, o ânus é inferiorizado, por vezes demonizado, por compor as práticas sexuais dos homossexuais masculinos. Em meados de 1980, por exemplo, com a eclosão do vírus da AIDS, os gays foram crucificados pela propagação dessa doença, já que se acreditava que ela era transmissível apenas entre eles. Felizmente, esse pensamento foi sendo modificado com os avanços científicos e culturais da sociedade, uma vez que não é só pelo ânus que se contrai tal enfermidade, mas através de qualquer ato sexual desprotegido e promiscuo. Ou seja, mesmo sendo um dos maiores focos de contagio dessa doença, o cu não é o vilão das doenças sexualmente transmissíveis como se imaginava. O problema residia mais num tabu em torno do uso dessa parte do corpo do que na homossexualidade, pois há quem acredite que ser gay necessariamente tem que dar o cu, quando na verdade, as relações homoafetivas não se resumem a isso.
Toda essa discussão ainda acontece porque existe todo um histórico em torno do cu, entre positivismos e mais negativismos, geralmente relacionados a uma indústria pornográfica, a qual lucra horrores com as nossas limitações. Quando falo de indústria, não e refiro apenas à clássica pornô, responsáveis pelos folhetins e filmes do gênero. Me refiro, sobretudo, a mídia televisiva com suas  mulheres turbinadas do pé a cabeça, especialmente na bunda. Nesse sentido, vale pontuar a cultura musical, a qual tem a bunda (leia-se cu) como epicentro de suas rimas, geralmente pobres, impulsionando a sociedade, que se diz “enojada” com o cu, a rebolar até o chão em coreografias que vão da boquinha da garrafa até o quadradinho de oito. Seja como for, nas baladas, esse povo que se diz careta já segurou o “tcham”, talvez dance de cabeça pra baixo nas noitadas ou, em quadro paredes, faz coisas com a bunda que prefiro nem comentar.
Outra, da tantas incoerências vividas pelo cu, ocorreu há pouco tempo por aqui. Diante de uma multidão que assistia ao jogo de abertura da copa do mundo de 2014, a nossa Excelentíssima presidente Dilma foi alvo do berrante verso: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” dito em alto e bom som para o Brasil e o mundo ouvirem. Ora, os torcedores que se acharam espertos ao manda-la tomar no cu, não imaginavam que tal frase saiu pela CUlatra, visto que nessa copa milionária, quem está e vai tomar no cu somos nós, e o pior, sem prazer. Entretanto, guardada as devidas proporções, é importante lembrar que o cu geralmente é utilizado em ambientes esportivos como forma de ferir seu oponente ou porque culturalizou-se que nos campos é palco de pessoas selvagens movidas apenas pela paixão pelo seu time, a qual permite esse tipo de vocabulário. Pode até ser, mas não deixa de ser pejorativo, não por ser um palavrão, mas por guardar em seu íntimo a ignorância de um povo que repudia o cu, mesmo utilizando dele de diversas formas.
Nesse âmbito, ir tomar no cu é ruim pra quem? Isso vai depender de quem está mandando e de quem está recebendo. Há uma relatividade que merece ser pontuada. Baseado nisso, deveria existir um respeito maior para o cu, pois ele representa o único elo que nos une diante de tantas diferenças naturais e impostas que insistem em nos separar. No filme brasileiro Tatuagem, há uma cena que corrobora com a máxima anterior dita, quando em certa parte dos atores cantarolam o seguinte trecho “a única coisa do nos salva, a única coisa que nos une, a única utopia possível é a utopia do cu” e continuatem cu, tem cu, tem cu...”. Nesses versos satíricos há muito mais do que vulgaridade, para os olhos moralistas dos sórdidos puritanos. Há inúmeras verdades a serem reveladas a partir dessa pequena fenda tão estigmatizada e, ao mesmo tempo, tão desejada.
O cu é utópico porque subverte a normalidade e estagna a procriação da espécie. E nisso ele é altamente positivo, pois contem a inchaço social de um país onde a multidão vive na miséria. O cu é também libertário, visto que mesmo vivendo na clandestinidade, é livre nas transações mais comuns da nossa vida levando prazer aos mais necessitados. É constantemente ofertado como relíquia por muitos e recusado por poucos. Ele é, ainda, a deflagração do um prazer, por muitos pecaminoso, mas que é santificado no gozo reverberado entre os casais. Ele é puro, humano, natural e, por isso, necessário. Vive entre o bem e o mal. Na luz ou no apagar delas nos quartos de motel em nas suítes residenciais. Isso na hora do sexo se decide. O cu é controverso, pois mesmo sujo, é cobiçado. Então, antes de ofender alguém, antes de sentenciar quem quer que seja, é bom se lembrar do dito que diz: “pimenta no cu dos outros é refresco!”, pois só assim lembraremos que antes de tudo, temos algo que nos iguala, o cu. E tanto o seu, quanto o da Dilma, o meu e de quem quer que seja, merecem respeito.

Na balada é tudo igual



A música toca freneticamente. As luzes reverberam acompanhando esse frenesi produzido pelo ballet de cores luminosas. Em baixo, como marionetes, as pessoas dançam e se entregam ao feitiço das luzes. Estou na balada, mais precisamente na fila para entrar nela. Resolvi sair de casa na esperança de me divertir.  Queria espairecer as deias, ver gente nova e, de preferência, bonita. Ao mesmo tempo, queria ouvir boa música, dançar, comer, jogar conversa fora e, quem sabe, beijar na boca.
Então, foi o que fiz. Fui à balada. Mesmo diante da inquestionável mesmice que me aguardava, decidi, esperançoso, que essa noite seria diferente, coisa que eu já tinha me dito várias vezes nas quatro outras noites do mês passado. Nessa iria me jogar, beber até o sol raiar ou até o meu fígado suportar. Era sábado, no domingo poderia descansar o máximo para recobrar as forças, já que na segunda feira era dia do trampo.
Me arrumei todo, escolhi aquela roupa que melhor valorizava meu corpo. Me banhei de cremes e perfumes, deixando um rastro de diversos aromas juntos no ar. Sem esquecer, é claro, das joias. Pus as minhas pulseiras mais bonitas, alguns anéis impactantes e o relógio mais pomposo de que tanto gosto. Mais uma olhada no espelho. Uma ajeitadinha daqui, uma arrumadinha dali, e pronto. Estava pronto para me jogar. Antes de sair, porém, pensei em ligar para um amigo que me fizesse boa companhia. Pensei em vários e marquei com um. Nos encontramos na entrada da balada, como combinado.
Perto do clube aonde ia, vi outras pessoas arrumadas e prontas para fazer o mesmo que eu, se divertir. Porém, por um instante, eu fui pego pensando no que levaria tanta gente a buscar o mesmo roteiro que eu. Elaborei algumas hipóteses. Talvez estivessem indo comemorar alguma coisa, ou apenas marcaram com alguém interessante. Que sabe para arriscar e encontrar aquela pessoa especial que há tempo faltava em suas vidas. Nesse instante também me perguntei por que eu estava indo à balada e descobri, assustado, que não sabia dizer o que me levava até lá. Talvez um pouco de cada um dos hipotéticos dilemas que criei sobre aquelas pessoas.
Em meio aos meus pensamentos, fixei meu olhar no rosto dos baladeiros ai presentes. Muitos estavam ansiosos por uma possível diversão. Outros exibiam no olhar a necessidade de que aquela noite deveria mudar suas vidas. Muitos desejavam apenas uma noite causal. Poucos queriam encontrar a pessoa ideal. E, por fim, percebi que quase todos ali presentes estavam vazios por dentro e foram badalar em busca de algo que os preenchesse. Inclusive eu. Eu também estava oco, mas não sabia o certo o que me faltava. Semelhante a todos, eu buscava por um nada, que era tudo o que precisava.
Em baixo daquelas luzes, nossas almas ganham vidas e se perdem no emaranhado  de braços ávidos por abraços e bocas sedentas por um beijo de afeto. Com a música ensurdecedora, não escutamos nossos corações baterem. Em seu lugar, ouvimos a batida da música dar vida a um coração tenta renascer dentro de um corpo que já estava morto há muito tempo. Diante disso, continuei fixado nos rostos daqueles desconhecidos e me vendo refletido neles. Mesmo sem saber seus nomes, algo entre nós mantinha um indissolúvel elo. Intuí que a nossa interação era mantida pela terrível sombra da solidão.
Solidão esta que corrói por dentro quando estamos angustiados. Que nos consome quando a frustração bate em nossas portas. É a mesma que quando não concretizamos um desejo, ou quando um sonho morre à deriva no mar da desesperança. O sentimento que nos domina quando alguém especial se vai antes de hora. Ou quando sentimos que o mundo a nossa volta nos abandonou. Movidos por essa solidão, buscamos nos safar dela em bares, boates, clubes, enfeitiçados por uma alegria efêmera vem e vai tão rápido quando uma dose de gim, ou quando a noite insistem em ceder para o dia.
Sem perceber, eu estava só no meio de tantas outras pessoas na mesma situação. Querendo me encontrar, me deparei com outros indivíduos perdidos e drinks alucinantes e danças cada vez mais provocantes. Semelhante a tantos outros nessa centelha de falsos prazeres, fiquei imóvel vendo a multidão entrar. Senti a presença do meu amigo chegar, mas não reagi. Não estava lá. De repente, como se tivesse acordado de um transe, olhei em todas as direções e vi que na babada é tudo igual. Jogos de luzes, música contagiante, alegria de outdoor e nada mais. Festa de vampiros que se desfazem ao amanhece entre cinzas, silêncio e solidão, como no triste olhar do pierrô.
Com o estridente toque do meu celular, voltei à consciência do transe que estava. Me vi pronto para sair de casa em frente ao espelho com o olhar distante, vago. Entre sonho e realidade, fiquei na dúvida entre sair e vivenciar o que acabara de imaginar, ou em ficar e casa. Sabia que era uma daquelas pessoas solitárias em busca de um autoencontro. O desejo de desistir da noitada aumentava. Não podia fazer o que todos fazem, muito menos consciente disso. Deveria haver um jeito de preencher esse vazio que me consome. Mas, quando o meu telefone tocou mais uma vez, vi que era o número do meu amigo. Atendi pronto para recusar qualquer convite. Ele, mais rápido que eu, foi direto ao ponto. Seu pedido foi claro: vamos babalar? Te espero lá! Falei sem hesitar.

23.6.14

A sexualidade não admite enganos


Sou homem, gosto de mulheres, transo com elas, mas às vezes fico com alguns rapazes. Beijo na boca, troco carícias íntimas e até faço sexo oral neles, porém não me considero gay. Sou g0y.” Essa é a versão dos adeptos do mais novo modismo dentro do segmento homossexual da atualidade. Mesmo não se autointitulando gays, fica evidente uma homossexualidade entre estes indivíduos que resolveram criar uma nova definição para os seus desejos. Essa repaginada no comportamento sexual acontece por diversas razões, sobretudo aquelas ligadas à ojeriza social que é nutrida contra o público gay na história da humanidade.  Porém, quando se fragmenta a sexualidade, amplia-se o preconceito vigente dentro dessa questão e desarmoniza todo o trabalho sócio-histórico-cultural para incluir os homossexuais no seio da sociedade.

O preconceito em torno da sexualidade tem seu epicentro marcado com a nominalização das práticas sexuais humanas. Se antes o contato sexual entre pessoas do mesmo sexo era naturalizado, com o surgimento das palavras heterossexualidade e homossexualismo (sic) houve a polarização dos desejos e, consequentemente a diferenciação entre eles. Agora, ser hétero está fincado no que é correto e aceitável pelos pilares sociais e religiosos, ao passo que ocorre o inverso com a homossexualidade. É por isso também que os g0ys não querem ser tachados de homossexuais, uma vez que a sua ideologia nasce da heteronormatividade dominante, então não é adequado ir de encontro às regras. O que eles desejam é se realizar sexualmente, mas sem perder a realeza e o conforto proporcionado pela heterossexualidade.

A palavra g0y chama atenção inicialmente pelo destaque dado ao seu segundo vocábulo “0”. Talvez ninguém tenha percebido, mas este destaque guarda uma perigosa mensagem. Por serem avessos às práticas anais, já que isso faz parte do campo da homossexualidade, os g0ys destacam o vocábulo mencionado como uma verdadeira barreira. Na verdade, aquela letra representa a diferenciação entre eles e os gays, pois estes últimos praticam sexo anal. Ora, em quaisquer espaços dicionarizados compostos por livros e estudos acadêmicos, sabe-se que a homossexualidade não se limita às práticas anais. Sentir atração por outra pessoa do mesmo sexo já caracteriza que o indivíduo nutre um perfil homossexual/homoafetivo. Ou seja, o que os participantes desse movimento pseudo-heterossexual estão vivenciando é uma prática homossexual não declarada.

Outro ponto importante dessa discussão reside no que eles afirmam ser uma “amizade sem preconceito”. É interessante falar em preconceito nesse grupo que se relaciona com pessoas do mesmo sexo, porém não admitem a palavra gay como definição para seus atos. Com isso, aumentam consideravelmente a discriminação em torno da homossexualidade, visto que os g0ys representam uma versão “melhorada” dos gays, a qual pode tudo menos fazer sexo anal. Por estarem com os pés simbolicamente fincados na heterossexualidade, eles acreditam serem superiores aos homossexuais, uma vez que podem ser héteros e, quando quiser, se envolver com rapazes. Esta liberdade de transitar pelos sexos criou nesse grupo a falsa ideia de que não são gays, mas indivíduos modernos se permitindo conhecer faces da sexualidade dantes não permitidas.

Acontece que com essa atitude os g0ys problematizam os reais papeis da sexualidade humana e até que ponto a fragmentação desta é periculosa/positiva para a sociedade. Infelizmente, numa cultura onde assumir os reais desejos sexuais ainda é considerado um tabu, não é coerente desmembrar o que já está há muito tempo esfacelado. Prova disso ocorre dentro da própria comunidade LGBT, onde gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, lutam entre si para se afirmarem nessa sociedade, ao invés de unirem forças em prol de suas causas; que são distintas em suas particularidades, mas comuns no geral. Diante disso, os embates por aceitação desembocam no seio social onde a carência de informação faz com que o preconceito dificulte a compreensão da pluralidade sexual humana.

Aqui no Brasil, muito antes da designação g0y, já havia práticas semelhantes. Inúmeros são os casos de rapazes ditos heterossexuais que tem relações íntimas com outros homens, héteros ou gays, e que não se consideram homossexuais. Casos até de relacionamentos vindouros, dos quais homens vivem vidas duplas, casados, com filhos, e seus respectivos amantes, mas não se assumem gays. A partir disso, percebe-se que o surgimento do g0y veio talvez validar algo que já acontece na prática em várias partes do mundo: o envolvimento de pessoas com outras do mesmo sexo. Entretanto, o estrangeirismo dessa palavra carrega mais uma moda do que uma cultura real, o que faz com que esse movimento se torne dúbio aos olhos dos reais homossexuais.

Por possivelmente ser um modismo, os g0ys contribuem para a incredibilidade das causas gays nos últimos anos. Enquanto, ano após ano estudiosos se dedicaram a explicar a natural manifestação da sexualidade, surgem indivíduos dispostos a brincar com ela, como se esta fizesse parte de um jogo. Do outro lado da moeda está a sociedade assistindo a tudo isso e fazendo seus julgamentos. Dentro dela, poucos serão aqueles que farão uma análise aprofundada dessa questão. A maioria irá classificar isso como mais uma perversão humana, inclusa no campo da homossexualidade, retardando mais uma vez as mínimas conquistas angariadas pela comunidade homossexual. Sem contar que fundamentalistas, sobretudo os religiosos, aproveitarão o ensejo para crucificar os gays perante a sociedade, ao dizer que ser homossexual não passa de um “modismo”.

Tudo isso acontece porque os g0ys fazem parte da cultura heteronormativa, a qual tem a homossexualidade como perversão humana. Mais que isso, o que esses adeptos pensam ser apenas uma brincadeira entre amigos, é mais uma prática homossexual disfarçada e recheada de preconceito, ao passo que é controlada pela hipocrisia, já que eles afirmam uma coisa, mas realizam outra. Com esse engano, o que os g0ys fazem é perpetuar a periculosa superioridade criada pela humanidade, a priori entre os sexos homem e mulher, e, agora entre gays e “não gays”. Esse engano só irá prejudicar os homossexuais, que lutam por aceitação e respeito social. Além é claro de criar uma imensa confusão na sociedade que já não compreende a relação entre as pessoas do mesmo sexo, imagine agora que alguns decidiram se relacionar com iguais, mas se mantêm “héteros”.


Ninguém escolhe ser branco ou negro, pobre ou rico, homem ou mulher. Apenas nasce-se como tal, de acordo com as circunstâncias sociais e históricas envolvidas na existência de cada indivíduo. Por essa razão, também ninguém escolhe ser hétero ou homossexual. Por mais que haja muitas discussões em torno da construção da sexualidade humana, estas prerrogativas ainda se encontram em total anonimato. A religião e a ciência até tentaram, mas não acharam respostas concretas capazes de explicar os diferentes desejos humanos. Porém, criou-se uma cultura da qual ser homossexual vai de encontro às leis da natureza sacralizadas por diversos segmentos religiosos. Por essas razões, ser g0y soa menos agressivo, já que o g0y pode constituir família e, por essa razão, perpetuar a espécie. Pena que, por mais que se esforcem, nada vai mudar o que eles realmente são: pessoas inseguras que buscaram numa palavra o engano necessário para fingirem algo que não são, héteros.

Prostituição: o retrato de uma sociedade doente.


Nas avenidas, nos clubes, nas saunas, na vizinhança e também na internet, muitos são os locais onde se pode encontrar a prostituição. Seus encantos enfeitiçam homens e mulheres há gerações. Diante de tamanha hipnose, parece que poucos notaram que há uma incoerência nessa relação da qual o sexo é comercializado. A priori, a sociedade tem a vaga ideia de que o profissional do sexo é aquele que recebe para cumprir um determinado papel. Entretanto, numa análise mais centrada, percebe-se que na prostituição não há papeis principais ou secundários. Distantes dessa teatralização sexual, o que se vê são duas pessoas carentes em busca de prazeres diferentes. Seres desejosos de uma satisfação mútua, mas que infelizmente são tolhidos de realiza-las por diversas razões. Então, surgem os guetos sexuais, espaços onde a concretização do prazer ganha vida, exibindo a verdadeira face da prostituição: a de uma sociedade que não aprendeu a lidar com o próprio ato sexual de forma naturalizada. 

Sem registros precisos na história da humanidade, mas lendariamente conhecida como a profissão mais antiga do mundo, a prostituição sobrevive na atualidade entre a liberdade de sua prática e o moralismo da sociedade. Dela, homens e mulheres, insatisfeitos com as imposições sociais de cada época, buscam uma realização sexual fora dos moldes convencionados pelos dogmas religiosos ocidentais, dos quais têm a monogamia como padrão. No entanto, essa espécie de transgressão, que é vista ora como deleite por alguns ora como uma afronta aos valores conjugais por outros, não está apenas limitada aos famosos profissionais do sexo. Numa sociedade onde o corpo é cada vez mais coisificado e a sexualidade humana ainda é vista como tabu, o resultado é a prostituição de indivíduos, que muitas vezes, nem sequer tem a noção de que estão sendo sexualmente comercializados.

Para efeito conceitual, denominam-se prostitutas aquelas pessoas que recebem dinheiro para realizar fantasias sexuais. Semelhantes ao gênio da lâmpada, esses profissionais fazem dos impossíveis sonhos dos seus clientes, a mais doce realidade. Exercendo essa função com total esmero, estão às mulheres, principais protagonistas desse teatro a dois. Elas que povoam ruas e bordeis onde homens vão buscar a realização sexual há muito tempo perdida. De idades, etnias e classes sociais diversas, são elas as responsáveis pelo deleite de homens, casados ou solteiros, adultos ou jovens, que encontram em seus braços a chave para a porta que abre o paraíso. Putas, cocotes, rameiras, acompanhantes, entre eufemismos e xingamentos, elas concretizam os desejos de uma sociedade acostumada a encontrar nos guetos o que foi privada de ter em casa.

Há também muitos homens que se renderam a esse tipo de atividade. Conhecidos como michês ou garotos de programa, muitos são os rapazes que se aventuram nesse submundo em busca de dinheiro, fama e sucesso. Nessa atmosfera, vale citar as travestis, que entram nessa vida muitas vezes por uma imposição social, da qual relega a elas a venda do próprio corpo como meio de sobrevivência. Entretanto, sejam entre mulheres, homens ou travestis, a carência sexual é o principal pivô da incessante busca da sociedade por estes profissionais. Sem uma educação libertária no tocante ao sexo, muitos indivíduos rompem com a moral e os bons costumes e vão saciar suas necessidades nos braços daqueles mal vistos pela sociedade. Diante disso surge a questão: quem realmente se prostitui?

A verdade é que, direta ou indiretamente, todos são prostituídos, antes mesmo de terem ciência disso. Tal violência acontece nos primeiros ensinamentos ligados ao sexo, seja dentro de casa, seja na atmosfera escolar. Nesses ambientes, falar de sexo ainda é tocar em casamento, procriação, filhos, nunca está relacionado ao prazer, a gozar a vida literalmente. Por essa razão, os indivíduos são violentados por uma educação que não ensina as várias possibilidades que o sexo pode oferecer, mas apenas a limitação procriativa em torno dele. Censurados, duvidosos e com muita curiosidade, estes seres logo são angariados pela indústria do sexo, a qual comercializa o prazer, que deveria ter sido ensinado com naturalidade em determinada época da vida, mas que agora se tornou cifra para aquisição de pseudoalegrias. É nesse momento que surgem os bordeis, pois é somente neles que o real prazer é permitido e onde deverá ser consumado por aqueles que foram privados dele a vida toda.

Seguindo esse raciocínio, a indústria pornográfica lucra muito com tudo isso. Com filmes, clubes e profissionais dispostos a satisfazer qualquer fantasia, esse ramo é um dos mais lucrativos do mundo.  Isso acontece, porque ao saber da carência sexual vivida pela sociedade, a pornografia cria os mecanismos perfeitos, capazes de preencher as lacunas da falta de educação sexual. Na realidade, muitos procuram por estes serviços, porque se sentem incompletos sexualmente. Então, surgem esses atores/atrizes entretendo essa sociedade prostituída, que vive num eterno dilema: vender uma imagem de país liberal, onde o sexo é livre, com suas mulheres exuberantes, geralmente corporificadas pelo samba, pelos comerciais de cervejas e pelos jogos de futebol; ou manter os tabus ancestrais nutridos por diversos segmentos religiosos, os quais veem o sexo apenas como um ato divinal? Seja como for, muitos indivíduos não estão contentes com esse modelo e buscam a todo custo transgredi-lo através do sexo pago.

Por outro lado, a banalização do sexo também contribui para que a sociedade seja prostituída. Numa cultura onde tudo cheira a sexo, desde cedo, desorientados e altamente motivados, muitos jovens são prostituídos pela mídia e seus atraentes reclames. Ora através da televisão e seus comerciais e problemas apelativos, dos quais a sensualidade é despertada em propagandas dúbias, novelas com cenas picantes e filmes impróprios; ora pela conduta musical, a qual tem banalizado o ato sexual, tornando-o muitas vezes vulgarizado entre homens e mulheres, sobretudo entre estas últimas. Sem referências reais, muitos indivíduos se deixam levar por isso e acabam se entregando ao deleite do sexo descompromissado. Isso reverbera em gravidezes não planejadas, doenças sexualmente transmissíveis e até em morte. Tudo porque a sociedade não aprendeu a experienciar o sexo como este deve e merece ser experienciado: naturalmente.


Então, diante de tudo isso, a prostituição aparece como salvadora da pátria. Ela é importante por inúmeras razões. A primeira porque naturaliza a prática sexual, proporcionando aos seus clientes a experiência prazerosa que foi roubada deles por causa de uma educação limitada em torno do sexo. Segundo porque, ela dá uma tapa na cara dos conservadores e sensacionalistas, que costumam inferiorizar os profissionais do sexo. Na verdade, quem se prostitui não são as garotas de programa ou os michês, mas quem procura pelos seus serviços. Eles sim são os reais prostitutos, pois durante o dia vulgarizam essa profissão, mas ao cair da noite se entregam aos encantos de moças e rapazes e se deixam levar por eles. Último ponto disso tudo é que a prostituição, e sua longínqua existência na terra, evidencia que a sociedade vive uma doença chamada: ausência de sexo. Por causa disso é que muitos pacientes lotam puteiros e ruelas atrás da cura para esse terrível mal, que infelizmente acomete muito mais gente do que se imagina. Sorte que o antídoto tem preços variados e é encontrado em diversos locais, sempre proporcionando alívio e relaxamento imediato a quem o procura.

A cara metade não existe


A afirmação inicial que intitula esse texto não poderia ser mais apropriada. Numa sociedade onde os relacionamentos mudaram consideravelmente nas últimas décadas, não é de se surpreender com a inexistente ideia da cara metade. Na realidade, além desta, não temos mais a alma gêmea, a outra metade da laranja, a pessoa predestinada a namorar, noivar e quem sabe casar. Essas formalidades vêm perdendo cada vez mais espaço.

Tudo isso porque poucos são aqueles que buscam firmar um compromisso com alguém. A maioria quer “ficar”, curtir e até compartilhar pessoas, mas não se juntar com ninguém. Então, o resultado disso são indivíduos vazios, vagando em busca de prazeres temporários, ao passo que suas reais carências são abandonadas por uma cultura da qual o individualismo afetou também as relações conjugais.

A priori, é importante mencionar que, com a evolução social,o modelo de família “comercial de margarina” não ocupa o palco central das relações. Numa cultura onde predomina a individualidade, as pessoas se sentem mais a vontade para construir as relações que acharem mais saudáveis para si. Ou seja, o decréscimo das “conjugações” se deu porque não há mais em muitas pessoas a necessidade ou o desejo de construir uma história matrimonial duradoura. Muitos querem/preferem se dedicar as suas respectivas carreiras e/ou projetos pessoais, deixando a questão da vida pessoal para último plano.

A posteriori, cabe pontuar que, com o tempo, as exigências para se ter alguém também foram ampliadas. Se antes muitas vezes um acordo familiar tratava de “arranjar” o parceiro ideal; visto que a mulher não tinha autonomia para tal. Hoje, elas e eles sentem-se livres para escolher a parceria ideal. Tal escolha, obviamente, ainda é regida por segmentos sociais poderosos que impõem o outro lado da moeda para uma vida a dois. Entre eles está a mídia televisiva e toda a sua influência novelesca, musical e cinematográfica.

Nas novelas, os pares românticos criam o enfadonho modelo matrimonial. Nas músicas, ora há a reafirmação do amor romântico propagado pela histórica cultura literária, ora há o descompromisso nesse sentido e a retratação de uma sociedade mais real. Já o cinema é o aglutinador de tudo isso, com seus clássicos e a imposição “hollywoodiana”.  Passível a tudo isso está o telespectador, absorvendo cada uma dessas vertentes de acordo com as suas limitações.

Sobre a parte musical, bem como a cultura de massa inserida nela, vale ressaltar que não há em muitas canções letras que valorizem uma relação duradoura. Nelas, a curtição fica explícita em letras que propagam uma vida bandoleira, regada a muita bebida, drogas ilícitas e sexo sem compromisso. Longe de moralismos, mas é complicado encontrar alguém disposto a arcar de sua vida de solteiro, a qual envolve descompromissados entre indivíduos que aprenderam a ser livres e não querem largar mão disso.

Almas carentes que se unem apenas para saciar os desejos da carne, que são bons, mas efêmeros, enquanto a alma ânsia por uma companhia. Tal carência não se limita a bares e boates. Na internet, os aplicativos de relacionamentos brotam como água e a procura é intensa por estas páginas. A promessa de encontrar alguém é o que alimenta esses indivíduos contemporâneos, que conseguiram tudo: dinheiro, carreira, estabilidade; menos alguém para compartilhar tudo isso.

Nessa atmosfera, engana-se que apenas o tradicional casal, homem e mulher, penem para encontrar alguém para fincar morada. Infelizmente a questão do ninho vai além dos ditames ligados ao sexo, sexualidade, gênero ou identidade de gênero. Obviamente que os casais heterossexuais sejam mais afetados nesse assunto, por estarem no ápice da pirâmide social, onde temas como casamento, procriação e constituição familiar são pilares fundamentais para aqueles que creem no modelo clássico de família.

No entanto, com a reformulação social, outros modelos de famílias foram surgindo e com eles seus dilemas. Ou seja, casais homossexuais também passam pelo drama de conseguir manter uma relação estável. Aos gays solteiros a coisa é bem pior, pois devido à intensa promiscuidade, arranjar alguém disposto a uma vida a dois é quase como achar uma agulha no palheiro numa noite escura.

Diante de tudo isso, parece que a desesperança tomou conta dos relacionamentos humanos. Porém, é sempre bom destacar que mesmo com tudo isso, ainda há pessoas dispostas a manter uma relação estável, independente de ser hétero ou homossexual. O problema é que para encontrar tais indivíduos se tornou uma tarefa cada vez mais árdua nessa sociedade plastificada onde o individualismo tentar controlar até o amor que poderíamos sentir pelo próximo.

25.5.14

Nada contra: a ironia do Brasil


Eu realmente não tenho preconceito. Nenhum mesmo. Quando acho que vou agir de forma preconceituosa, falo pra mim mesmo: “Ei, mais respeito rapaz!” E tudo certo! Considero-me alguém à frente do meu tempo e até suporto certas novidades. Baseado nisso, me acho tolerante e respeito muito às diferenças. Como bom brasileiro que sou, faço da cidadania um lema sagrado, algo que todos deveriam fazer também em suas vidas. Acredito na paz, na natureza, no amor ao próximo e outras baboseiras do gênero. Violência P**** nenhuma! Sou calmo demais, qual é? Vai encarar? Tá achando que não sou homem? Deu para sentir que sou a versão mais próxima dos direitos humanos em pessoa. Cheio de virtudes e temente a Deus, penso que só a fé salva o homem e eu, que vou a igreja assiduamente, para garantir meu lugar no céu. Mas, mesmo com tantas qualidades, cá entre nós, têm coisas que não dá para acreditar.

Nada contra os negros, mas garantir cotas por causa da cor da pele deles é um pouco demais, não acham? Sei que eles sofreram um pouquinho no período da escravidão, e tal. Porém, daí oferecer certas regalias a eles é um pouco forçado. Nada contra, mas como branco, desejo preservar o meu espaço de direito nessa sociedade multifacetada e heterogênea, entende?! (Ainda não compreendo como Barack Obama assumiu o maior cargo do mundo) Acho que com tantos privilégios, esses negros estão ficando cheios de direitos. Vai chegar um dia em que eles vão controlar esse país. Nada contra, mas se isso acontecer, seremos obrigados a seguir a macumba deles. Sei que cada um tem sua fé, mas esses cultos satânicos não podem dominar o país, não podem! Sem contar que seremos ainda mais escravizados pela cultura desse povo, desde o samba até o acarajé. Deus nos livre disso acontecer!

Nada contra também as mulheres. Gosto muito delas. Quando as vejo na TV, fico excitado. Nos comerciais, elas sempre aparecem exuberantes. Os publicitários sempre acertam nas modelos. Corpulentas, cheias de curvas, sinuosas e vestidas como o diabo gosta. Nossa, suo toda vez que as vejo. Quando aparecem com uma cerveja gelada, a combinação fica mais que perfeita. porém, nada contra aquelas mais moderninhas e tal, mas ser mulher sozinha, ganhar mais que o marido a ainda assumir a presidência do país,  acho isso demais, sabe! Lembro-me da minha mãe, Amélia, que Deus a tenha. Ela sim era uma grande mulher. Cozinhava de forno a fogão. Lavava, passava e, ainda, costurava como ninguém. Obediente, servia ao meu pai numa devoção invejável. Suportava dores como ninguém. Infelizmente, se foi cedo demais. Espero encontrar uma companheira como ela. Mas, nesse mundinho de intelectuais e popozudas, tá difícil encontrar alguém ideal.

Nada contra os gays. Eu até acho eles legais. Na época do colégio, lembro-me do Fernando (que depois eu e a galera começamos a chama-lo de “nandinha”). Sempre alegre, junto das meninas, ele não gostava muito de andar com a macharada. Logo a minha turma percebeu algo estranho nele. Muito delicado, cheio de mi mi mi, só podia ser veado, tava na cara! Meus amigos tiravam onda da cara dele. Apelidos, então, vieram aos montes. Eu não fazia nada.  Até falava com ele, mas de longe para não dar motivos para chacota. Como falei, não tenho preconceito contra veados, mas cresci como homem e quero que isso seja o futuro para meus filhos (ah, se algum deles virar para o outro lado, eu nem sei...deixa pra lá!). então, como vou explicar para os meus filhos que dois homens podem se beijar? Se casar? Isso não é normal! Vai contra as leis divinas. Não é preconceito pensar assim, é o certo.

Nada contra a pobre. Ninguém tem culpa por ter nascido na miséria. Mas, tem coisa pior do que favelado. Eh, gente feia! São sujos, maltrapilhos. Por mais que se arrumem, nada os deixam mais apresentáveis. E o vocabulário? Minha nossa, é de chorar. Com tanto auxílio governamental disso e daquilo, tantas bolsas, tantas cotas, nada parece melhorar o linguajar e a vida dessa gentinha. Não é de se espantar por que são tão miseráveis. Sequer falam a nossa língua. E os gostos? Se é na música só escutam funk, pagode e outras barulheiras do gênero. Como não pensam feito nós, são levados a gostar desses estilos menos literários. O mau gosto também se estende para as comidas. É churrasco, com direito a muita farofa e fumaça. Quando não, aquela feijoada super insalubre cozinhada com carne de porco e condimentos além do limite permitido pelo nosso estômago. Sem contar a marginalidade desses locais, onde boa parte tem ficha suja, mas prefiro me calar por aqui, para não ser mal interpretado.

Nada contra o nordestino. Esse povo “arretado de bom” do nosso Brasil. Porém, já perceberam que o nordestino é atrasado em tudo? Pois, se olharmos direitinho, vamos notar que tudo no nordeste está em último lugar. As piores escolas do país ficam lá, consequentemente, os índices mais baixos em educação. Por essa razão, são uns completos ignorantes. A população passa fome. Água lá é um artigo de luxo, já que a seca domina boa parte dessa região. O calor é de rachar. Eles falam arrastado, como se estivessem cantando. Tenho um conhecido que veio de lá para morar aqui no sul do Brasil. Seu nome é Francisco, seu Chico para os íntimos. Toda vez que falamos sobre o nordeste, ele enche os olhos de saudade de sua terra. Eu, do outro lado, fico imaginando do que ele sente tanta falta. Será que é da seca? Da fome? Da miséria? Acredito que não, se não ele não deveria ter ficado por lá. Numa região que nada tem a oferecer, é melhor ficar por aqui na cidade grande e tentar mudar de vida.

Os preconceitos acima são alguns dos muitos que listam a ironia de se morar no Brasil. As pessoas não percebem quando estão cometendo algum preconceito, porque olham para o outro a partir de um ponto de vista confortável, geralmente assegurado pelos grupos majoritários da sociedade. Enquanto isso, do outro lado, estão aqueles que desejam ser respeitados para além das suas “diferenças”. Felizmente, muita coisa tem mudado com relação aos negros, mulheres, gays, pobres, nordestinos e tantos outros grupos estigmatizados socialmente. Porém, a estrada para assegurar a dignidade a esses grupos ainda é longa. Lamentavelmente, o negro ainda é discriminado pela sua cor e sua cultura. A mulher é vista por muitos como “sexo frágil” e submissa ao homem. Os gays são tratados como aberrações e morrem aos montes, pois falta uma legislação que os ampare nesse sentido. Os pobres, então, vivem de assistencialismo, enquanto os seus reais problemas não são, de fato, solucionados. E, por fim, morar no nordeste é viver à margem de tudo.


Enquanto isso, fingimos que não temos preconceito contra nada, nem ninguém, mas basta uma análise mais apurada para ver que não é nem assim. Mesmo sabendo que todos nós possuímos algum preconceito, é sempre bom pontuar que há muitas pessoas que lutam para corrigir os seus, no intuito de buscar um maior entendimento da vida e do ser humano em si. Na verdade, a frase “nada contra” deveria ser substituída por “sou contra”. Ser contra a violência deflagrada pelo racismo, a qual não entende que o caráter de uma pessoa não é medido pela melanina de sua pela. Ser contra ao machismo herdado pelo patriarcado, que insiste que mulher é objeto em todos os sentidos. Ser contra ao preconceito contra os gays e essa insistente violência em torno da pluralidade sexual deles. Ser totalmente contra a pobreza que marginaliza as pessoas que mais precisam, tirando delas a chance de ter um futuro melhor. Ser contra também ao preconceito regional social, religioso e cultural. Então, quando unirmos forças contra tudo isso, o nada contra deixará de ser ironia e se tornará uma piada.

18.5.14

Mulher bonita não paga, mas também não leva.


Casas noturnas, restaurantes, táxis. Seja no primeiro encontro, um jantar romântico ou numa balada, é comum vermos casais em tais ambientes, geralmente em comemoração a algo comum a ambos. Tão comum também nesses eventos casuais é a pessoa que paga a conta. Numa cultura altamente machista como a nossa, aqui no Brasil muitos são os casos ainda em que o homem é que deve fazer as honras da noite. Isso acontece, porque muitas mulheres guardaram a herança patriarcal, da qual diz que ele deve ser o cavalheiro em todas as instâncias e ela, como boa acompanhante, deve apenas aguardar que ele exerça seu papel como manda o figurino. Com isso, a discussão em torno da igualdade de gênero perde força, visto que enquanto uns buscam teorias para igualitar os seres humanos, na prática outros caminham na direção inversa a isso.

E por que mulher não paga? Este questionamento é antigo e suscita antigas questões em torno dos fadados temas, feminismo e machismo. O dito popular, de forma ambígua, responde tal questão dizendo que, em muitos casos, a mulher não precisa pagar. Essa não precisão decorre de uma cultura que apregoou nelas uma passividade em todos os sentidos, até na hora de dividir a conta. A rigor, porém, o “cavalheirismo” masculino trata de assumir o papel de pagante, para cumprir uma conduta, uma regra social. Tal atitude guarda intrinsecamente mensagens perversas em torno dos papéis de gênero na sociedade, a partir do momento que confere poder a ele e subserviência a ela. Além disso, ressuscita na sociedade o patriarcado outrora adormecido, quando as fêmeas submissas dependiam completamente dos seus tutores, inclusive no quesito financeiro.

Com isso, muitos estabelecimentos oferecem entrada franca às mulheres, principalmente quando estas são solteiras. É uma forma de atrair rapazes, que possam consumir entre tantas coisas, também as mulheres presentes. Essa objetivação feminina, muito comum em nosso país, não é percebida, pois naturalizamos a postura de muitas baladas e casas de shows que simplesmente dizem que ela não paga e quando paga é um valor inferior ao dele. Nisso, há outra mensagem perigosa que ratifica as perdas e ganhos dos gêneros no Brasil. Infelizmente, mesmo com a ascensão feminina em vários setores, muitas ganham bem menos do que os homens, sobretudo quando exercem funções semelhantes. Ora, então quando ele paga para ela fica claro o poder masculino no quesito financeiro, já que como elas recebem menos devem pagar menos, ou melhor, não pagar.

E essa passiva postura feminina é seguida à risca por muitas. Basta ir a vários ambientes badalados para verificar que elas se submetem a serem iscas dessa cultura machista. Evidentemente que muitas vão, mas por pura inconsciência, exercem esse papel passivo sem ao menos se darem conta disso. Por reproduzir os ditames historicamente estabelecidos, elas se deixam ser pagas por homens que começam oferecendo um drinque, que desemboca num jantar e pode acabar na cama. Neste momento, a questão não se relaciona com a prostituição, pois esta guarda em seu íntimo outras definições e contextos específicos. A mulher em voga não é a promíscua, mas a interesseira moderna, aquela que sai na noite em busca do homem que além de lhe dar carinho, atenção, deve bancar todos os gastos oriundos desse encontro.

Nessas horas, o ditado popular em torno delas ganha múltiplas explicações. “Mulher bonita não paga, mas também não leva”. Realmente, não leva, em partes, pois muitas levam sim: um assovio debochado, uma cantada vulgar, uma alisada no cabelo, uma tapinha na bunda, uma noite de prazer, entre tantas outras atitudes mais ousadas. O que elas não levam para casa é o respeito necessário para sair na noite sem o rótulo de objeto estampado nos olhos de muitos homens e nos letreiros de diversos clubes. Não levam também a autonomia conquistada com muita luta, para pagar suas próprias contas sem precisar da carteira masculina para isso. Sem contar que reforçam nestes locais o machismo operante na sociedade, o qual aparece sempre nessas pequenas trivialidades do cotidiano. O dito popular é perigoso, ainda, por destacar que as “mulheres bonitas não pagam”, ou seja, e as feias? Quem paga por elas? A resposta é simples: ninguém paga, pois não há ninguém disposto a custear a “feiura” de uma mulher.

Entre as casadas, ou com relacionamentos firmes, há coisa caminha de forma semelhante. Muitas não dividem a conta do restaurante, não pagam a entrada dele na balada, nem cogitam a possibilidade de financiar a maior parte do taxi, mesmo que em alguns casos ganhem bem mais que seus cônjuges. Elas foram ensinadas a pagarem menos, quiçá nada. Orientadas pela família a pela sociedade a serem a parte frágil também neste quesito. Sem contar que, do outro lado da moeda, há muitos homens educados de forma semelhante. Eles também são preparados para serem responsáveis por todos os gastos oriundos de uma relação. Não lhes foi ensinado a partilhar, mas sim a pagar. E isso não se resume apenas aos primeiros contados de um determinado casal. Esta conduta se perpetua ainda nos papeis homem e mulher após o casamento, quando ele fica responsável pelo provimento do lar e ela amarga a alcunha de dona do lar.

Felizmente, muitas mulheres subvertem esse papel e custeiam suas saídas na noite, quando são solteiras, sem nenhuma vergonha. Outras dividem sem problema a conta com o companheiro e, em alguns casos, até pagam a parte dele sem constrangimento nem ar de superioridade por isso. Eles, cientes de que é uma divisão e dotados de mente aberta, não se importam em partilhar com elas as contas, até porque se relacionar é compartilhar, desde os sentimentos até as dívidas. Conscientes de que não há uma obrigatoriedade nessa questão, mas sim relatividade, muitos casais conseguem modelar uma rotina menos pesada para ambas as partes no quesito financeiro. No país, por exemplo, já tem muitas residências, onde as mulheres trabalham e os homens, sem tabus, assumem as tarefas domésticas. Isso só é possível quando não se delimita os papéis de gênero, naturalizando a postura de cada um dos elementos envolvidos, sem os ditames impostos pela sociedade.


Por tudo isso, entendemos que homens e mulheres têm capacidade suficiente de se auto sustentarem sem precisar se ancorar no outro para financiar seus prazeres. Elas, em especial, precisam se desapegar dessa cultura submissa que volta e meia insistem que elas são inferiores a eles e, por isso, devem se submeter a determinadas regras impostas pelo sexo alfa. Numa sociedade onde a ascensão feminina ganha mais espaço, é de se esperar que assumam também as rédeas de suas finanças, sem a sombra masculina. Logo, é incoerente encontrarmos mulheres que acham “elegante” a ideia de que eles sempre devem pagar e elas não. O que deve estar em foco é o consenso nessa questão e não a obrigatoriedade. Pois, a partir do momento que homens e, sobretudo mulheres, entenderem seus reais papeis na sociedade, talvez as palavras machismo e feminismo se tornem, enfim, palavras arcaicas em nossos anais.

11.5.14

Os perigos do funk ostentação


De todas as artes existentes, talvez a música seja a que mais toca a alma humana. Por retratar dilemas sentimentais e sociais, ela emociona, choca, nos faz pensar na vida e, em alguns casos, até nos aliena. A partir deste último ponto, poderíamos mencionar diversos estilos musicais, atuais e de outrora, que foram responsáveis pela alienação de grande parte da sociedade brasileira. A rigor, no entanto, é importante destacarmos um gênero musical que tem ganhado extrema visibilidade no país atualmente, o funk ostentação. Nele, pessoas de comunidades carentes assumem o papel de poderosos endinheirados e propagam em suas letras uma vida bem distinta da vivida por alguns deles mesmos fora das luzes da ribalta. Com isso, uma perigosa mensagem é perpassada por esses artistas que, talvez, inconscientes e inofensivamente estejam propagando um modelo de vida, do qual ostentar, a todo custo, é a palavra de ordem.

Segundo a definição dicionarizada, a palavra ostentação significa “ação ou efeito de ostentar, afetação na ação de exibir riquezas ou dotes”. Numa sociedade onde a pobreza ainda não foi erradicada nem minimizada, soa contraditório encontrar indivíduos que esbanjem bens, enquanto outros vivem à míngua. Mais incoerente ainda é quando pessoas que se enquadram nos grupos mais miseráveis da escala social fazem de tudo para ostentar benesses superficiais, como se quisessem incluir-se em um mundo onde o ter é mais importante do que qualquer coisa. É o que acontece hoje com o chamado funk ostentação. Nele, os Mcs, como são conhecidos, incorporam os personagens dos quais o poder brota do exibicionismo monetário, na tentativa de inserir-se na atmosfera daqueles que na sociedade só tem valor se tiverem posses. Isso acontece, porque, infelizmente numa nação apartada pela pobreza, muitos indivíduos procuram se refugiar no ilusório mundo onde o sonho de ser rico passa a ser realidade por alguns instantes.

Casarões, carros importados, joias, bebidas, mulheres bonitas e, claro, muito dinheiro, é o que enfatiza as letras e clipes desse gênero musical. Uma mega produção é criada para retratar o onirismo desses cantores, com direito até da participação de famosos. Entretanto, falta em algumas letras à ideia de como um jovem, que vive à margem da sociedade, irá conquistar tantas riquezas da noite para o dia. Fora do subjetivismo musical, sabemos que para enriquecer num país como o nosso é preciso nascer em berço de ouro, herdar milagrosamente alguma herança, ganhar na mega sena, virar celebridade instantaneamente, fazer parte da política corrupta do país, jogar futebol ou cometer atos ilícitos. De todos estes, talvez seja o último que leve muitos adolescentes a esbanjar o que não podem, sobretudo através do submundo do crime, controlados nas favelas pelas armas e pelas drogas.

Cercados pela pobreza e, muitas vezes sem perspectiva de vida, muitos jovens se encantam com esse universo de faz de conta da ostentação e acabam fazendo de tudo para se incluir nele. Evidentemente que nem todos ingressam na marginalidade para mudarem de vida. Muitos são os casos em que os indivíduos, através da música como os Mcs, conseguem ascensão social de forma honesta. Agora, o público, incipiente e facilmente manipulado, nem sempre absorve de forma correta a mensagem das letras do funk que tem como foco ostentar um modelo de vida discrepante do grande público. Como explicar, por exemplo, a uma criança de oito ou dez anos de idade, fã desse gênero musical e moradora das grandes favelas do país, que ostentar só é válido se, e unicamente se, o indivíduo for capaz de adquirir suas riquezas através de muito suor? Além disso, como, a partir do funk atual, minimizar a marginalização desses infantes que, vivendo hipnotizados nesta sociedade de consumo, não veem outra alternativa, a não ser melhorar de vida, custe o que custar?

Essas questões parecem ter sido tangenciadas por alguns Mcs, preocupados apenas em retratar seus sucessos pessoal e profissional através de suas músicas. Muitos deles nem sequer vivem uma vida de luxo. Ao contrário disso, boa parte ainda não saiu da comunidade onde mora e sobrevive dos shows que fazem nos famosos bailes funks. Nessa Neverland periférica, é compreensível a priori, a atitude desses rapazes. Como não sonhar com um mundo de luxo, onde não haja mais fome, miséria nem violência. Um lugar maravilhoso com fartura em alimento, casas confortáveis, um carro e, se possível dinheiro extra para gastar. Uma favela imaginária, recriada a partir do desejo desses indivíduos que nasceram num país onde ser favelado é ser desfavorecido de todos os direitos mais básicos da cidadania.

É por isso que, a posteriori, fica fácil entender o fenômeno do rolezinho que causou, e ainda causa, polêmica no Brasil. Nada melhor do que o shopping, epicentro do consumismo e, por isso, da ostentação, ser o palco para os protagonistas das regiões mais pobres do país estrelarem. Nele, os rolezinhos invadiram e foram marginalizados, pois não houve um entendimento por parte da sociedade sobre o porquê desses jovens, repentinamente, terem invadido um espaço destinado a outras classes sociais. A multidão de renegados representava a revolta de um grupo social cansado de ser esquecido pela outra grande metade da sociedade acostumada a tratar os favelados como marginais. Ao mesmo tempo, no contexto musical, não podemos esquecer que na cultura do funk ostentação, estes jovens podem tudo para realizar seus desejos de consumo, inclusive invadir espaços públicos como o shopping, para deleite deles e desesperos dos presentes.

Os perigos do funk ostentação residem, portanto, na ausência de explicação das letras musicais, das quais o ter está nitidamente acima do ser. Também é perigoso, em qualquer escala social, difundir o consumismo a todo custo sem explicar como o indivíduo deverá conseguir tanto dinheiro para viver uma vida regrada a luxo. Sabemos que a música quer passar uma mensagem e, no caso do funk ostentação, a palavra de ordem é superação. E isso é valido, pois não há nada mais significativo do que buscar alternativas para mudar de vida. Porém, o hedonismo dessas canções não pode ser tomado como regra por uma sociedade ainda cerceada pela pobreza e controlada pelo crime organizado. O prazer, de que todos buscam e tem direito, deve vir com muito trabalho e não do “nada”. Se isso não ficar bem marcado em nossas mentes, muito em breve veremos indivíduos diversos fazendo de tudo para ostentar o que não têm. Se é que isso já não esteja acontecendo.

Era só mais um Silva


O simplismo do sobrenome Silva é mais um dos muitos legados portugueses no Brasil. Entre os colonos, tal palavra é comumente conhecida por caracterizar as famílias de menor prestígio social. No nosso país parece que esta classificação, pautada no nome, ainda resiste. Por aqui, ser da Silva é o mesmo que não ser ninguém, como se a palavra guardasse em seu íntimo um que de indigência. Por causa disso, nossos Silvas, geralmente pobres, negros e favelados, são dizimados pela sociedade, alargando as estatísticas em torno do aniquilamento das minorias.

Para provar isso, o Brasil acompanhou há poucos dias na mídia o caso do dançarino Douglas Rafael da Silva, assassinado a tiros no Rio de Janeiro. Ele que foi baleado por ter sido confundido como um bandido e, por isso, teve a vida interrompida aos 26 anos idade. O que chama atenção nesse caso é que o rapaz não foi morto apenas por uma duvidosa ação policial. Ele morreu, como se morre nesse país, por ser minoria. No caso dele três: pobre, negro e funkeiro, cada uma destas intimamente ligadas com a desigualdade social que ainda assola o país.

Não é necessário, a priori, de estatísticas capazes de comprovar o índice de mortandade entre os marginalizados do país. Porém, para os mais céticos, uma pesquisa divulgada pelo Ipea, publicada na Revista Carta Capital, trouxe dados alarmantes. Segundo a publicação, em 2013, mais de 50% dos crimes seguidos de morte tinham a população pobre como vítima. Deste número 70% eram negros. Essa vitimização é fruto do descaso social e governamental vivido por esses grupos. Sem uma real proteção, quem se enquadra nos predicados minoritários acaba sendo alvo fácil de crimes desse tipo.

Mesmo não tendo o racismo como palco central do assassinado do dançarino, ele se apresenta implicitamente na questão do emblema social do qual os negros ainda são rotulados. Por ser negro, vestir-se com trajes simples, o rapaz foi visto como o protótipo negro da cultura brasileira, aquele que é malandro e, por essa razão, bandido. Semelhante ao ajudante de pedreiro, Amarildo, arrastado por policiais e que até hoje está desaparecido. Amarildo não tem o Silva no nome, mas se configura como negro, tal qual Douglas e isso já faz desses dois personagens seres sem direitos a própria vida.

Nessas mortes, a localidade onde morava cada um dos personagens conta muito, bem como a sua cultura. A favela, para muitos, é o berço do crime, da bandidagem, local onde a ilicitude fincou raízes tão profundas que até hoje o poder público não foi capaz de tomar uma providência. Entretanto, o que muitos não se perguntam é como a favelização se tornou tão periculosa no Brasil e por que nada é feito para minimizar os dilemas desse povo. Simplesmente, nunca houve um trabalho voltado para quem vive à margem e o resultado disso é a brutalização de um povo que, sem direitos, tenta a todo custo sobreviver nesta sociedade, mesmo que de forma ilícita.

Tal clandestinidade criou na favela uma cultura transgressora, representada pelo funk carioca, mesmo ritmo dançado pelo Douglas. Com batidas envolventes e letras retratando os dilemas da comunidade, essas músicas ganharam o país com funkeiros e os mais atuais Mcs. Nelas, a dor de um povo carente de tudo serve de repertório para extravasar os clamores dessa gente que não é ouvida. Dentre tantas, uma parece ser bem interessante para as mortes dos tantos Silvas: Rap do Silva. Parece apropriado retirar dela o verso que diz "era só mais um silva que a estrela não brilha, ele era funkeiro mas era pai de família".

E era mesmo. Douglas deixou uma criança que vai crescer sem pai, tudo porque esse rapaz nasceu numa sociedade onde ser pobre, negro e funkeiro é sinônimo de não ter direito. Além disso, ele era da Silva, sem eira nem beira, mais um entre tantos outros indigentes sociais, que ainda não morreram, mas quando chegar a hora, serão eternamente esquecidos. Pessoas de boa índole que são assassinadas e nada é feito para, pelo menos, criminalizar os reais culpados. Enquanto nada de significativo é feito, a sociedade assiste, chocada e passiva, a morte abrupta e prematura de rapazes e trabalhadores, como Douglas e Amarildo, de pés e mãos atadas.

Nesse emudecimento social, quem mais sofre com a insegurança são aquelas pessoas que, como os atores desse texto, nasceram pobres, negros e dentro de uma cultura que só é cultuada quando é conveniente. Já está na hora da população dar um basta nisso. Por isso, não dá mais para derramar lágrimas a cada novo cadáver inocente que ensanguenta a mídia. O que o dançarino queria, semelhante ao ajudante de pedreiro, era apenas liberdade. Ser livre para ser eles mesmos, com a simplicidade individual, características físicas e gostos culturais. Livres para ir r vir, nesse país onde a liberdade é para poucos. Eles queriam representar o refrão de outro funk que dizia "eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar". É, e o pobre tem um lugar, mas não é no topo da pirâmide do país, infelizmente.

Uma banana para o preconceito


A manifestação do preconceito assusta por ser um ato de total ignorância e desconhecimento. Por causa desses dois ditames, muitos indivíduos diferentes servem de alvo para todo o tipo de violência, a qual geralmente não tem os reais culpados punidos. Nesse sentido, agir de forma preconceituosa contra quem quer que seja já é abominável e é ainda pior quando é praticado em espaços onde reina a confraternização. Um desses locais eram os estádios de futebol. O verbo no passado está bem empregado, porque infelizmente o campo deixou de ser um lugar amistoso para se tornar a arena do preconceito.

Era para ser apenas mais um jogo de futebol. Time em campo, torcedores lotando a arquibancada e então eis que surge algo no ar. Como uma granada arremessada para atingir um inimigo, alguém lança ferozmente um objeto que, comumente, não é utilizado como arma. Rapidamente o projétil chega perto do alvo, o qual resolve comê-lo. Para deixar mais claro, enganou-se quem pensou numa bala, ou qualquer outra coisa do gênero. O objeto misterioso foi uma banana. Isso, aquele fruto super nutritivo foi usado como arma contra o jogador Daniel Alves. Ele que não pensou duas vezes e engoliu a ofensa goela abaixo.

O jogador, que é negro, recebeu de um torcedor a ofensa racista na forma de uma banana. Fato este que, infelizmente não é isolado. Em times europeus, dos quais há uma predominância de atletas de cor branca, quando há um negro, este acaba se tornando alvo de racismo. Na europa, esse ato criminoso vai ser punido. Entretanto, a questão não se resume a uma punição. A incoerente atitude dos torcedores, que vivem entre a adoração e a repressão, denota que nem o futebol está imune de ser palco de violência, mesmo sendo conhecido por agregar pessoas de diferentes definições sociais.

Se em países de primeiro mundo isso ocorre, imagina no Brasil. Por aqui, atletas futebolísticos sofrem por serem negros e são agredidos verbalmente no exercício de suas funções. Numa busca rápida pela internet é fácil de encontrar jogadores de diversos times que passaram por situações como essa. Para ilustrar, muitos lembram do lateral esquerdo Roberto Carlos, que sofreu racismo quando atuava pela Rússia. O que ele tem de semelhante com Daniel, além da cor da pele, é a marginalização do seu trabalho baseado em uma ideia de raça, se é que tal palavra ainda exista.

Isso ainda acontece, porque infelizmente não há um trabalho voltado para a valorização da cultura e do povo negro. Ao invés disso, a negritude é vista como inferior, subserviente e marginal, bem como tudo o que está em sua volta. Ou seja, quando alguém de pele negra assume a sua identidade negróide, desde o cabelo afro, aos gostos musicais e religião, acaba sendo posta à margem, ou, no caso do Daniel, igualado a um macaco. Com isso, no futebol, testemunhar atitudes animalescas como estas de torcedores deixa claro que estes não sabem ou ignoram a origem dos seus atletas.

Os grandes ídolos desse esporte são negros, desde Pelé até o Neymar. Eles e muitos outros vieram de comunidades carentes e conquistaram um lugar ao sol se tornando grandes craques para muitos. Além disso, eles serviram e ainda servem de modelos para muitos, principalmente crianças, negras e pobres, que buscam um futuro melhor, longe de armas, drogas, violência e morte. Tudo isso com a garra de atletas negros, reconhecidos dentro e fora dos gramados nacionais. Ora, então quando algum torcedor ataca um jogador negro ele, incoerentemente, está violando o seu papel no campo de respeitar quem está jogando, independente da cor da pele, ao passo que também desrespeita sua herança histórica, já que na nação não há ninguém cem porcento branco ou negro.

Nesse Brasil repleto de preconceitos, a discriminação vivida pelos negros beira a burrice. Os indivíduos que nutrem esse tipo de pensamento ou vivem com a cabeça nos tempos nefastos da escravidão, ou são tão ignorantes ao ponto de desconhecer todo o trajeto dos negros no país, o qual inclui sofrimento e um riquíssimo legado. Pior ainda é quando esta conduta negativista é aplicada em jogos futebolísticos, onde deveria reinar o espírito de competitividade salutar. 

Então, quem quer jogar a favor do preconceito é bom saber que perderá a partida. As minorias ganham a cada dia o seu espaço na sociedade, e com os negros não serão diferentes. Eles não devem ser tratados como animais, apenas pela quantidade de melanina na sua pele. Nem como criminosos, confundidos duvidosamente como bandidos e mortos por isso. Na luta contra esse tipo de opressão, a sociedade deve dar uma banana para quem pensa que negro é bicho. Uma banana para quem desvaloriza o legado e a ancestralidade do povo negro. E uma palma de banana bem grande para o governo, que não investe em políticas afirmativas educacionais em prol desse povo. E, por fim, cartão vermelho e uma banana para quem insiste em dizer que negro é inferior. Qual é a sua real cor afinal?