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25.5.14

Nada contra: a ironia do Brasil


Eu realmente não tenho preconceito. Nenhum mesmo. Quando acho que vou agir de forma preconceituosa, falo pra mim mesmo: “Ei, mais respeito rapaz!” E tudo certo! Considero-me alguém à frente do meu tempo e até suporto certas novidades. Baseado nisso, me acho tolerante e respeito muito às diferenças. Como bom brasileiro que sou, faço da cidadania um lema sagrado, algo que todos deveriam fazer também em suas vidas. Acredito na paz, na natureza, no amor ao próximo e outras baboseiras do gênero. Violência P**** nenhuma! Sou calmo demais, qual é? Vai encarar? Tá achando que não sou homem? Deu para sentir que sou a versão mais próxima dos direitos humanos em pessoa. Cheio de virtudes e temente a Deus, penso que só a fé salva o homem e eu, que vou a igreja assiduamente, para garantir meu lugar no céu. Mas, mesmo com tantas qualidades, cá entre nós, têm coisas que não dá para acreditar.

Nada contra os negros, mas garantir cotas por causa da cor da pele deles é um pouco demais, não acham? Sei que eles sofreram um pouquinho no período da escravidão, e tal. Porém, daí oferecer certas regalias a eles é um pouco forçado. Nada contra, mas como branco, desejo preservar o meu espaço de direito nessa sociedade multifacetada e heterogênea, entende?! (Ainda não compreendo como Barack Obama assumiu o maior cargo do mundo) Acho que com tantos privilégios, esses negros estão ficando cheios de direitos. Vai chegar um dia em que eles vão controlar esse país. Nada contra, mas se isso acontecer, seremos obrigados a seguir a macumba deles. Sei que cada um tem sua fé, mas esses cultos satânicos não podem dominar o país, não podem! Sem contar que seremos ainda mais escravizados pela cultura desse povo, desde o samba até o acarajé. Deus nos livre disso acontecer!

Nada contra também as mulheres. Gosto muito delas. Quando as vejo na TV, fico excitado. Nos comerciais, elas sempre aparecem exuberantes. Os publicitários sempre acertam nas modelos. Corpulentas, cheias de curvas, sinuosas e vestidas como o diabo gosta. Nossa, suo toda vez que as vejo. Quando aparecem com uma cerveja gelada, a combinação fica mais que perfeita. porém, nada contra aquelas mais moderninhas e tal, mas ser mulher sozinha, ganhar mais que o marido a ainda assumir a presidência do país,  acho isso demais, sabe! Lembro-me da minha mãe, Amélia, que Deus a tenha. Ela sim era uma grande mulher. Cozinhava de forno a fogão. Lavava, passava e, ainda, costurava como ninguém. Obediente, servia ao meu pai numa devoção invejável. Suportava dores como ninguém. Infelizmente, se foi cedo demais. Espero encontrar uma companheira como ela. Mas, nesse mundinho de intelectuais e popozudas, tá difícil encontrar alguém ideal.

Nada contra os gays. Eu até acho eles legais. Na época do colégio, lembro-me do Fernando (que depois eu e a galera começamos a chama-lo de “nandinha”). Sempre alegre, junto das meninas, ele não gostava muito de andar com a macharada. Logo a minha turma percebeu algo estranho nele. Muito delicado, cheio de mi mi mi, só podia ser veado, tava na cara! Meus amigos tiravam onda da cara dele. Apelidos, então, vieram aos montes. Eu não fazia nada.  Até falava com ele, mas de longe para não dar motivos para chacota. Como falei, não tenho preconceito contra veados, mas cresci como homem e quero que isso seja o futuro para meus filhos (ah, se algum deles virar para o outro lado, eu nem sei...deixa pra lá!). então, como vou explicar para os meus filhos que dois homens podem se beijar? Se casar? Isso não é normal! Vai contra as leis divinas. Não é preconceito pensar assim, é o certo.

Nada contra a pobre. Ninguém tem culpa por ter nascido na miséria. Mas, tem coisa pior do que favelado. Eh, gente feia! São sujos, maltrapilhos. Por mais que se arrumem, nada os deixam mais apresentáveis. E o vocabulário? Minha nossa, é de chorar. Com tanto auxílio governamental disso e daquilo, tantas bolsas, tantas cotas, nada parece melhorar o linguajar e a vida dessa gentinha. Não é de se espantar por que são tão miseráveis. Sequer falam a nossa língua. E os gostos? Se é na música só escutam funk, pagode e outras barulheiras do gênero. Como não pensam feito nós, são levados a gostar desses estilos menos literários. O mau gosto também se estende para as comidas. É churrasco, com direito a muita farofa e fumaça. Quando não, aquela feijoada super insalubre cozinhada com carne de porco e condimentos além do limite permitido pelo nosso estômago. Sem contar a marginalidade desses locais, onde boa parte tem ficha suja, mas prefiro me calar por aqui, para não ser mal interpretado.

Nada contra o nordestino. Esse povo “arretado de bom” do nosso Brasil. Porém, já perceberam que o nordestino é atrasado em tudo? Pois, se olharmos direitinho, vamos notar que tudo no nordeste está em último lugar. As piores escolas do país ficam lá, consequentemente, os índices mais baixos em educação. Por essa razão, são uns completos ignorantes. A população passa fome. Água lá é um artigo de luxo, já que a seca domina boa parte dessa região. O calor é de rachar. Eles falam arrastado, como se estivessem cantando. Tenho um conhecido que veio de lá para morar aqui no sul do Brasil. Seu nome é Francisco, seu Chico para os íntimos. Toda vez que falamos sobre o nordeste, ele enche os olhos de saudade de sua terra. Eu, do outro lado, fico imaginando do que ele sente tanta falta. Será que é da seca? Da fome? Da miséria? Acredito que não, se não ele não deveria ter ficado por lá. Numa região que nada tem a oferecer, é melhor ficar por aqui na cidade grande e tentar mudar de vida.

Os preconceitos acima são alguns dos muitos que listam a ironia de se morar no Brasil. As pessoas não percebem quando estão cometendo algum preconceito, porque olham para o outro a partir de um ponto de vista confortável, geralmente assegurado pelos grupos majoritários da sociedade. Enquanto isso, do outro lado, estão aqueles que desejam ser respeitados para além das suas “diferenças”. Felizmente, muita coisa tem mudado com relação aos negros, mulheres, gays, pobres, nordestinos e tantos outros grupos estigmatizados socialmente. Porém, a estrada para assegurar a dignidade a esses grupos ainda é longa. Lamentavelmente, o negro ainda é discriminado pela sua cor e sua cultura. A mulher é vista por muitos como “sexo frágil” e submissa ao homem. Os gays são tratados como aberrações e morrem aos montes, pois falta uma legislação que os ampare nesse sentido. Os pobres, então, vivem de assistencialismo, enquanto os seus reais problemas não são, de fato, solucionados. E, por fim, morar no nordeste é viver à margem de tudo.


Enquanto isso, fingimos que não temos preconceito contra nada, nem ninguém, mas basta uma análise mais apurada para ver que não é nem assim. Mesmo sabendo que todos nós possuímos algum preconceito, é sempre bom pontuar que há muitas pessoas que lutam para corrigir os seus, no intuito de buscar um maior entendimento da vida e do ser humano em si. Na verdade, a frase “nada contra” deveria ser substituída por “sou contra”. Ser contra a violência deflagrada pelo racismo, a qual não entende que o caráter de uma pessoa não é medido pela melanina de sua pela. Ser contra ao machismo herdado pelo patriarcado, que insiste que mulher é objeto em todos os sentidos. Ser contra ao preconceito contra os gays e essa insistente violência em torno da pluralidade sexual deles. Ser totalmente contra a pobreza que marginaliza as pessoas que mais precisam, tirando delas a chance de ter um futuro melhor. Ser contra também ao preconceito regional social, religioso e cultural. Então, quando unirmos forças contra tudo isso, o nada contra deixará de ser ironia e se tornará uma piada.

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