23.12.13
O maior legado de Mandela
O sentimento de pesar pela morte de Nelson Mandela ainda está latente em todo o mundo. Ele que indiscutivelmente foi, e será, uma das maiores personalidades da nossa história. Com uma trajetória sofrida e cheia de conquistas, Mandela nos deixa na matéria, mas o seu legado viverá entre nós durante muito tempo. Quando falo de legado não me refiro apenas da inquestionável luta dele contra o racismo. Se pararmos para pensar um pouquinho, ele nos lega algo maior do que isso: a necessidade de se lutar por alguma causa. Num mundo onde o umbiguismo reina soberano, é difícil ceder um pouco do nosso tempo para reivindicar algo nobre. Acostumados a ficar refugiados na zona de conforto, não lutamos mais por um mundo melhor, onde discriminações e preconceitos possam ser significativamente diminuídos. Ao contrário disso, continuamos a semear tudo aquilo que Mandela durante toda a sua vida guerreou: o desrespeito ao ser humano.
Na carona do líder africano, dentre as inúmeras lutas que necessitam de fortes soldados está a que se refere ao preconceito racial. Mesmo sabendo que o Brasil é formado por um caldeirão de etnias, muitos ainda nutrem aversão aos negros, apesar da escravidão ter sido extinta há tantos anos. As razões para esse tipo de pensamento são muitas, porém incoerentes, visto que não há nada que nos diferencie enquanto seres humanos, muitos menos a cor de nossa pele. A herança de uma era de escravidão, a qual reinava o discurso do que os negros não possuíam almas, fez com que perpetuássemos a ideia de que esse grupo fosse inferior aos outros. Sem contar que além desse estereótipo errôneo, outros ligados a marginalidade e subserviência sobreviveram todos esses anos. Por isso que é comum presenciar situações das quais os afrodecentendes são agrupados entre aqueles que devem apenas servir, ou ser alvo da criminalidade crescente do país. Com isso, cotas são repudiadas, pois não fomos educados a dar direitos e quem infelizmente nunca os teve. Nesse momento, cabe seguir o exemplo de Mandela e lutar por um mundo multicolorido, onde não há soberania entre os humanos, mas sim igualdade, ou no mínimo tolerância.
Outra luta importante é a que se refere à discriminação de gênero. Historicamente, o machismo travestido de patriarcalismo fez com que a mulher demorasse a conquistar seu devido lugar na sociedade. Hoje, temos uma presidente no poder, mas nada disso parece ter sido suficiente para diminuir a violência contra essas que ainda trazem cravadas na pele a indelével marca do “sexo frágil”. Isso porque se aprende desde cedo que o sexo masculino é dominante, ao contrário do feminino, o qual ainda é educado com limitação e recato. Essa descabida diferenciação educacional acaba resvalando numa sociedade onde perdura o machismo, tanto entre os homens quanto entre muitas mulheres, as quais se “acomodaram” com o segundo plano do qual foram sentenciadas. Por essa razão, os índices de violência contra elas não diminuiu. Pelo contrário, recentemente foi divulgado que a Lei Maria da Penha não está contendo o número de casos de agressões e mortes contra as mulheres. Os motivos são muitos, desde falta de pessoal capacitado para atendê-las, até a falta de denúncia das vítimas. Porém, penso que o principal vilão ainda é a nossa falta de vontade, e de coragem, de lutar contra isso também.
“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. Foram essas as sábias palavras ditas por Mandela e que me comoveram bastante. Como alguém que nasceu, cresceu e morreu num dos continentes mais degradados do planeta em vários sentidos, consegue perceber algo que o nosso país insiste em não enxergar? Educação, essa sim é uma grande causa para se lutar. Numa sociedade onde ser ignorante é natural. Ou pior, onde não ter conhecimento é o mesmo que servir de curral em período de eleição. Esse desrespeito com o saber é ignorado ano após ano e nada fazemos para mudar essa realidade. Esse descompromisso com o educar já é antigo e sabido por todos, porém poucas são as atitudes para revertê-lo. Cobram-se mais políticas públicas. Maior investimento governamental. Exige-se que uma maior parte do PIB seja direcionada para tal setor. São tantas as cobranças e metas e tão poucas as realizações que nos esquecemos de que a educação é um compromisso de todos. Do lar até a urna, da alfabetização à faculdade, somos responsáveis pela formação dos indivíduos que nos cercam. Por isso, cabe primeiro a nós nos transformarmos e, se possível, nos organizarmos para reivindicar melhorias nesse setor também. Quem sabe assim a arma que Mandela citou há pouco possa de fato modificar a triste realidade educacional e, portanto, social do país.
Nessa constante busca por um mundo melhor, é importante tocar numa outra questão bem conhecida, desde a África até o Brasil, a fome. Lamentavelmente, muitos são aqueles que nesse momento não possuem nada para servir aos seus filhos e parentes. Pessoas que por diversas razões foram esquecidas e que sobrevivem à míngua, geralmente em condições desumanas, onde a falta de comida é um desafio diário. Por aqui, mesmo com programas que visam minimizar essa inaceitável realidade, muitas pessoas ainda morrem de desnutrição, ou sofrem de doenças correlatas à falta de alimento. É contraditório saber disso num país rico em terras plantáveis, onde se cultiva tanta variedade alimentícia. Também é paradoxal saber que exista fome, numa sociedade que desperdiça toneladas de alimentos diariamente ao invés de direcioná-los a quem tanto necessita. E, por fim, é imoral saber que existam pessoas capazes de diminuir essa realidade com significativas doações, mas preferem deixar a cargo do governo essa responsabilidade. Nessa luta pela sobrevivência, o maior inimigo é, portanto, a disparidade social. Muitos com pouco e poucos com muito. Muitos discursos bonitos, mas poucas ações. Muitos desperdícios e muitos desnutridos. Muitos sacrificados, mas poucos sacrifícios. Muitos de boca cheia e outros muitos de barriga e futuro vazios.
Nesse mar de incertezas e violências cotidianas, eu não poderia deixar de mencionar uma das causas que mais tem ganhado à mídia e a sociedade como o todo: a criminalização da homofobia. Por mais que alguns considerem desnecessário criar leis específicas para assegurar a proteção dos homossexuais, destaco que no Brasil infelizmente as leis que prometem proteger toda a população infelizmente não são cumpridas. A prova está na Lei Maria da Penha, direcionada predominantemente para violência contra a mulher. A do racismo, contra a discriminação racial. Entre outras especificidades legais que são criadas para suprir a deficiência legal da nação no tocante às minorias. Então, porque não criminalizar a homofobia? Recentemente o projeto que tentava fazer isso foi arquivado. Líderes, de ideologia duvidosa, garantiram que direitos a favor da comunidade gay fossem indecorosamente arquivados e esquecidos. E isso acontece porque o desconhecimento da sexualidade humana agrupa os homossexuais no gueto das anomalias, dos mutantes. Estes, portanto, não merecem ser vistos como cidadãos, mas como a escória de uma sociedade machista, fundamentalista e indiscutivelmente ignorante. Enquanto isso, nossos iguais são excluídos, feridos e mortos, contudo não nos importamos com a causa deles, pois fomos educados a ignorar isso também.
Seguindo a trilha do desrespeito, nossa saúde pública agoniza em filas de hospitais lotados ou nos seus insalubres corredores. Faltam médicos e aparelhagem de qualidade. Faltam medicamentos e leitos adequados para os pacientes. Faltam investimentos e, sobretudo compromisso com esse setor. Com a segurança pública acontece algo semelhante. Ela que carece de pessoal qualificado e preparado para lidar com os diversos tipos de criminosos que insistem em exibir a real face da pobreza do país. Essas também são boas razões para se lutar. Nesse campo, nunca é demais reivindicar melhores instalações para os presidiários, para que eles possam ser ressocializados e não ensinados a serem piores do que já eram. Outras lutas são aquelas que se referem à corrupção, que insiste em macular a imagem já manchada do país. Sem se esquecer de lutar pela proteção e preservação do meio ambiente. Pela garantia dos direitos da criança e do adolescente. Pelo respeito ao idoso na rua, nos coletivos, nos hospitais, dando-os a preferência merecida. Por um transporte público decente. E pela assegurada regulamentação dos nossos direitos e deveres.
Lutar contra o trabalho escravo, seja ele infanto-juvenil ou sexual. Lutar pela melhoria das condições salariais do trabalhador brasileiro. Lutar para que o professor, espinha dorsal da metamorfose social, seja bem gratificado pelos seus feitos. Lutar para que o voto valha a pena. Lutar para que as religiões aqui existentes sejam respeitadas. Lutar pelo respeito aqueles que não possuem religião. Lutar por um Estado de fato laico. Lutar pelos índios e sua perpetuação. Lutar contra a violência em todas as suas instâncias. Lutar contra o consumismo. Lutar contra o consumo excessivo de drogas, seja lícita ou não. Lutar contra esse sistema engessado que não apresenta melhoras. Lutar por uma vida mais digna. Lutar pela felicidade, pela liberdade, pelo amor e pela justiça. Lutar pela utópica paz. Lutar contra qualquer tipo de intolerância, discriminação ou preconceito. Lutar contra essa falta de coragem de lutar e, enfim, ir à luta contra toda a ausência de direito que nos acomete ou aos nossos semelhantes. São tantas causas a serem seguidas. Tantas reivindicações necessitando de vozes para serem ecoadas. Tantos caminhos para transformar nossa existência, que eu poderia fazer um livro só sobre isso. Mas, prefiro encerrar esse texto com uma magnífica mensagem de Mandela: “A luta é a minha vida. Continuarei a lutar até o fim dos meus dias”. Ele cumpriu a parte dele. Falta a sua, a minha e a nossa parte. Então, vamos à luta, povo, pois ser feliz é ser livre!
Da palmatória ao WhatsApp
Infelizmente, vivemos na era da indisciplina. Jovens cada vez mais insubordinados crescem sem a devida delimitação necessária para se tornarem adultos conscientes e responsáveis pelos seus papeis em sociedade. Rebeldes desde muito tempo, hoje eles contam com um forte aliado para se desviarem dos estudos e, consequentemente do respeito ao ser humano, a tecnologia. Não que os recursos tecnológicos tenham sido negativos para as práticas educacionais, mas sim a forma como eles vão sendo utilizados e presenteados por pais e familiares, como forma de agradar ou “punir” seus filhos. No meio disso tudo, a escola é a maior vítima dessas mudanças juvenis, pois tenta educar esses jovens, garantindo-lhes um futuro promissor, ao passo que enfrentam o desinteresse estudantil proporcionado pelas inovações tecnológicas. Presos a redes sociais e ao mundo virtual, essa juventude adentra as salas de aula, alheios ao mundo real. Então, muito antes deles serem classificados como indisciplinados há outros rótulos possíveis e passíveis de análise, nesse contexto.
Se antes, o professor dizia em sala de aula “cala a boca menino!”, “Fulano, preste atenção na aula!”, “Beltrano, sente-se corretamente na carteira”, “Sicrano, faça as tarefas, ou vai ficar de castigo!”. Hoje, essas expressões ganharam o acréscimo das novas tecnologias. Agora, o comum é ouvir “Menino, desligue esse celular!”, “Saia dessa rede social!”, “Tire o fone do ouvido!”. De fato, o advento tecnológico modificou profundamente a nossa relação com o mundo e a escola não poderia ficar de fora disso. Acontece que ela ainda não sabe utilizar corretamente os recursos advindos da tecnologia, nem tão pouco consegue conter o uso demasiado e descontextualizado de celulares, Tablets, Iphones, Ipads, e Ipods em sala de aula. Devido a essa dicotomia, os jovens sentem-se livres para usar esses recursos irresponsavelmente tanto fora quanto dentro do ambiente escolar. Intensamente aprisionados a esses meios virtuais, os jovens estão sendo vitimados a se viciar cada vez mais pela tecnologia deturpada e menos pelos estudos, os quais já ocupam o terceiro ou quarto plano em suas vidas.
Por essa razão, antigos males escolares acabam sendo potencializados por causa da utilização errônea da tecnologia. O primeiro deles é a demasiada preguiça. Em sala de aula, ela se personifica na forma de sonolência, a qual obriga os estudantes a dormirem, às vezes profundamente nas aulas. Esse sono exacerbado não é fruto de noites de estudo ou madrugadas mal dormidas, mas sim de muitas e muitas horas navegando nas atrativas redes sociais, geralmente em pesquisas de conteúdos inapropriados ou de pouco valor intelectual. O segundo ponto nesse âmbito é a rebeldia. Acostumados a viverem no mundo sem fronteiras da internet e, consequentemente sem limites, muitos jovens não estão dispostos a acatar as regras impostas pelo colégio, nem tão pouco pelo professor. Logo, a autoridade exercida pela escola é vista como uma afronta a esses infantes, que aprenderam a ser livres em suas páginas virtuais, onde com pseudônimos e “fakes”, eles podem ser o que querem sem o comando ou orientação de ninguém. Por causa dessa conduta, o terceiro ponto dessa questão é a violência escolar praticada por muitos jovens. Sejam entre eles, ou contra professores, diretores, gestores e funcionários em geral, os jovens atualmente não se intimidam mais com o adulto que está na sua frente, nem tão pouco os enxergam como responsáveis pela sua formação educacional, mas sim como inimigos que querem ferir a sua intocada liberdade.
Entretanto, resumir essa questão apenas ao âmbito tecnológico é ignorar um fenômeno que também está imbrincado a tais aparelhos, a permissividade familiar. No passado, por exemplo, cabia aos pais à tarefa de castigar seus filhos por algum delito praticado por estes, geralmente privando-os de certas regalias para, assim, obter a obediência deles. Com o tempo e as modificações pedagógicas, há quem diga que bater numa criança, mesmo que seja apenas uma palmada, não é a forma mais adequada de educar. Os moldes sociais trataram, então, de mexer nessa questão e hoje dar uma tapa num infante é o mesmo que açoitar um negro nos tempos tórridos da escravidão brasileira. De fato, bater ao ponto de torturar esses pequenos seres humanos não resolveria o problema. Mas, será que a palmadinha não é realmente necessária? Numa época onde o diálogo parece não ser a arma mais adequada para conter a insubordinação juvenil, talvez recorrer aos moldes mais antigos pareça ser o mais acertado em alguns casos. Ou, unir estratégias que deram certo no passado com as do presente, sobretudo se estas estiverem aliadas com a escola, podem ser uma possível solução para tal problemática.
Enquanto isso não acontece, as palmadas continuam sendo substituídas por celulares de última geração. Os castigos, por Tablets. Os internatos, por viagens a Disney. E se antes a autoridade dos pais prevalecia, hoje ela é questionada, pois seja através de lágrimas fingidas, egos inflados e chantagens mil, jovens teatralizam protagonistas no palco onde os familiares são meros e passivos espectadores. Sem domínio sobre seus filhos, coube a escola a tarefa de resgatar essa juventude do abismo que inconscientemente foram lançados. Contudo, as raízes do desinteresse são tão profundas que dificilmente serão arrancadas sem deixar significativas ramificações. Sem contar que o ambiente escolar nada mais é do que o reprodutor dos estamentos vividos pela própria sociedade. Ou seja, como ensinar o gosto pela leitura a jovens que vem de famílias que não leem? Como criar o interesse pela escrita num mundo virtualizado, onde os caracteres delimitam a expressão verbal? Como fazer pequenos cálculos, analisar mapas, entender conceitos históricos e filosóficos, se a juventude não tem a consciência da importância de tais disciplinas? E, por fim, como disciplinar esses infantes num ambiente escolar que vive, ao mesmo tempo, longe e próximo da palmatoria e do Whatsapp?
O desinteresse juvenil pelos estudos parte da família, que não toma as devidas rédeas sob os seus filhos e que não vê a escola como instrumento de aquisição de conhecimento, mas sim como um local onde a juventude vai aprender algo que deveria ser prioritariamente ser aprendido e apreendido em casa, a educação. A culpa também é da escola, que não é capaz de criar um modelo pedagógico que possa de fato transformar a realidade juvenil, ao passo que acompanha as modificações sociais vividas por ele. Não adianta dá Tablets aos jovens, se não é ensinado previamente qual é a melhor forma de usa-lo. Também não é bacana criar espaços virtuais, quando falta um projeto real que integralize essas tecnologias com as práticas educacionais e, consequentemente a aquisição e conhecimento. Vale lembrar também da parcela de responsabilidade governamental, visto que, mesmo sabendo de toda essa realidade, pouco tem feito para modifica-la de fato. São tantos culpados conhecidos, tantos caminhos possíveis para modificar essa realidade, mas pouco fazemos enquanto família, educadores e, sobretudo eleitores. Por isso, talvez o caminho para reverter isso tudo seja a consciência do papel que cada um de nós, adultos, exerce na educação juvenil. Não adianta voltar a palmatoria, pois os tempos mudaram. Também não precisamos ver o WhatsApp como inimigo. Se ele está ai, bem como as outras tecnologias, que então pelo menos adentram no espaço escolar como ferramenta para o conhecimento de todos e não apenas uma mera distração, como tantas outras do gênero.
16.12.13
Lugar de artista é no armário
Ao pensar no armário, lembra-se instantaneamente de um local onde se guarda coisas. Fugindo dessa óbvia conceituação, metaforicamente o armário também serve de lugar para se esconder os mais periculosos segredos. Aqueles que podem denegrir a imagem do indivíduo, caso seja revelado. Durante anos, e até nos dias de hoje, é lá que se guarda uma dos maiores tabus da humanidade, a sexualidade. Esta que, quando foge do padrão, deve ser guardada a sete chaves. Se possível com trincas bem fortes, cadeados, correntes e, caso haja modernidade, vale também um sistema de monitoramento computadorizado e com uma senha indecifrável.
E porque esconder a própria sexualidade? Quando se trata da homossexualidade, os motivos são infinitos. Esconde-se por causa do preconceito familiar, da rejeição. Esconde-se para manter o cargo tão desejado. Esconde-se para continuar indo ao futebol, a igreja, as reuniões com os amigos héteros nas mesas de bar. Esconde-se, portanto, para se manter uma rotina social nesse universo dominado pela heteronormatividade. Então, revelar-se gay é o mesmo que perder tudo isso, para um indivíduo comum. Mas, quando ele é famoso, parece que as perdas são maiores. Vai da falta do tão sonhado prestígio ao tão cobiçado, mas pouco vivido, respeito.
Sempre que surgi uma polêmica em torno da sexualidade de alguém, isso acaba sendo manchete de jornais e virais nas redes sociais. Parece que o simples fato de não seguir a risca os padrões heteronormativos sentencia o indivíduo ao cárcere social, servindo de alvo para chacotas e especulações alheias. O pior de tudo é quando a pessoa em questão tem uma imagem pública. Para estas, por exemplo, assumir uma talvez homossexualidade resulta na auto exclusão e/ou redução a grupos específicos. Reduzir, nesse sentido, significa polarizar os artistas entre aqueles que correspondem ao grupo dos héteros e os do não héteros, ou de sexualidade “duvidosa”. Sem contar que, quando há incerteza nesse tocante por parte de uma determinada celebridade, o público instantaneamente revela seus preconceitos que pareciam embalsamados.
Há poucos dias, o cantor sertanejo e ídolo de muitas adolescentes, Luan Santana, teve sua integridade posta à prova nas redes sociais. A questão envolvia o cantor e os eu personal trainer, que segundo as más línguas, estariam tendo um caso. Semelhante a isso, outros artistas tiveram sua sexualidade na berlinda. O cantor Júnior, que fazia par com a sua irmã Sandy, já foi alvo de comentários desse tipo. Outra cantora, dessa vez Luiza Possi, foi questionada se estaria tendo um Love affair com a cantora, assumidamente gay, Maria Gadú. E não faltam exemplos: Ivete Sangalo com Xuxa. Ray com Zeca Camargo. Marlene Matos mais uma vez com Xuxa. São tantas as suspeitas, mas tão poucas as evidências que só resta um questionamento: e se eles fossem gays mudaria alguma coisa?
A resposta infelizmente é sim, mudaria. A mudança reside no velho preconceito que existe em torno da homossexualidade. Mesmo sabendo que no meio artístico a homossexualidade, bem como a homoafetividade, rolam soltas, ninguém está disposto a aceitar a orientação sexual do seu artista como de fato ela é. Quando a aceitação acontece acaba aparecendo os guetos, onde pequenos grupos que são diferenciados dos demais gêneros musicais se encontram para curtir sua celebridade favorita. Ouve-se, então, que os fãs da Ana Carolina são predominantemente gays. Enquanto os do Marcelo D2, por exemplo, são héteros. Será que ninguém se perguntou o porquê dessa polarização? Simples, porque o preconceito da sociedade infiltra-se no seio artístico de uma forma que mesmo admirando um determinado ídolo, muitos temem ser identificados como alguém próximo da homossexualidade porque ouve, canta e gosta de um determinado cantor, o qual é assumidamente gay ou no mínimo bissexual.
Com isso, muitos artistas preferem esconder sua própria condição sexual a ter que fragmentar seu público. Porém, nem sempre o armário consegue conter a homossexualidade contida em cada um deles. Sempre há uma perna fora do lugar. Um braço que escapole. Uma pluma que voa sem querer. Seja como for, não há escapatória. E o público “fiel” não perdoa. Ataca nas redes sociais assim que alguma dúvida surgi. Manda emails ora reclamando ora pedindo explicações. Deixa de ir aos shows e de comprar os CDs e DVDs do seu “artista favorito”. Quando não, segue seu ídolo, programa ataques verbais na rua e até agride se for o caso, pois a mente psicótica de algumas pessoas, o seu artista não pode ser gay. Tudo por causa de uma suspeita infundada, a qual nada vai interferir no talento que determinada celebridade possua.
Nesse ínterim, percebe-se que a polêmica ganha maiores proporções quando direcionada a celebridades masculinas. Tanto faz ser ator, apresentador, cantor, jogador de futebol, ou modelo, o ideal é que seja hétero. O discurso ignorante e implícito diz que os gays não pertencem a essa atmosfera. E, se caso pertençam, devem ser feios ou no mínimo engraçados para compensar. Artista masculino bonito tem que ser macho, pois neste caso a beleza também é reduzida a questão de gênero. Por isso que o cantor Luan Santana vem sendo alvo de críticas por causa de uma possível homossexualidade. Ele que é famoso, rico e bonito, não pode ter acrescido a essa lista o adjetivo gay, pois isso seria um descrédito a tudo o que ele lutou para conquistar até hoje.
Nesse tocante, ser gay parece anular os talentos do ídolo, pois para ser símbolo midiático não pode ser homossexual. Tem que ser hétero, viril, pegador e com cara de cafajeste, feito o ator Caio Castro. Ou, se for mulher, bonita, inteligente, comportada, boa dona de casa, como a apresentadora Angélica. Não que essas últimos papéis nãos ejam importantes, mas isso não significa ofuscar os tangenciar os outros. Na história brasileira, muitas foram às celebridades que assumiram sua homossexualidade e que deixaram um grande legado para sua e outras gerações. Nomes como Cazuza, Cássia Eller, Renato Russo, são alguns exemplos pontuais. Em vida, nomes como Maria Gadú, Ana Carolina, Daniela Mercury, Adriana Calcanhotto, são outros. Mesmo essa listagem sendo predominantemente feminina por causa do machismo operante, sabe-se que muitos são os artistas que vivem no limbo, seja na música ou na teledramaturgia. Seja como for, o fato de serem gays, bissexuais ou héteros não é argumento suficiente para reduzir seus talentos e seus legados. Contrariamente a isso, muitas dessas e outras celebridades que virão estão cheias de talentos, capazes de clarear o obscuro preconceito que neblina as mentes desses falsos fãs.
Fãs esses que fazem jus ao fanatismo, etimologia da palavra que lhe deus origem. Cegos por um ideal idólatra, eles não conseguem enxergar seu amado ídolo como um ser humano qualquer: que sofre, sente desejos. Que é hétero ou gay, ou pode ter dúvida nesse sentido (Por que não?!). Contrário a isso, pois hipnotizados pela indústria midiática, a qual vende muitas vezes produtos irreais, eles, os fãs, não aceitam que seus ídolos mudem “de repente” sua sexualidade e, impiedosamente guilhotinam o seu artista favorito para que ele sirva de exemplo para os outros. Intimidados, muitas celebridades guardam sua real sexualidade, e outras coisas humanas, no armário, pois sabem, ou foram abruptamente avisados que caso fujam do padrão perderão tudo o que conquistaram: a fama, a riqueza e o amor dos seus amados e compreensíveis “fãs”. Sem ter para onde fugir, só resta a essas pessoas viver uma vida de aparências o mundo imaginário de ilusões de indivíduos que foram criados e replicados para apenas gostar do que é padronizado. Felizmente, alguns artistas conseguem enfrentar toda essa barreira de preconceito e viver como de fato a vida deve ser vivida: livre e feliz. Por mais que essa liberdade e felicidade não façam parte daquilo que se convencionou chamar de “normal”.
10.12.13
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