12.8.13
É bom ser moleque enquanto puder
Mesmo sabendo que a
sociedade muda constantemente, às vezes, porém, acreditamos que certas coisas
demoram um pouco mais para serem modificadas. E esse pensamento também era
alimentado por mim, no que se refere a alguns temas, geralmente os polêmicos. Entretanto,
numa curta viajem de ônibus, feita há pouco, percebi que tal premissa não é
totalmente verdadeira. Na ocasião, vi pela janela duas garotas, de
aproximadamente 6 e 7 anos de idade, vestidas, maquiadas e requebrando o esqueleto
como duas mulheres adultas, ao som de um dos muitos funks que estão na mídia
atualmente. De cara, lembrei direto da minha infância e senti uma saudade
danada. Senti saudades da época em que Xuxa fazia sucesso, com suas
brincadeiras e músicas lúdicas e, ao mesmo tempo, senti pena das duas garotas. Elas,
bem como outras crianças da mesma faixa de idade, não tiveram e talvez não
tenham a oportunidade de serem crianças de verdade, mas sim protótipos adultos,
inconscientes dos riscos que correm.
Quem não sente saudade
da infância? Poucos são aqueles que irão dizer que não, pois a maioria de nós
nutre uma imensa nostalgia dessa linda época de nossas vidas. De fato, é
inegável não desejar isso, pois a vida de adulto, com seus problemas e responsabilidades,
não é nada atraente. Mesmo assim, não sei se a geração de hoje manterá esse
sentimento nostálgico quando chegar à maturidade. Falo isso porque a atmosfera
infantil mudou de forma drástica ao ponto de, precocemente, antecipar a
maioridade de crianças e adolescentes. Enquanto isso, no passado, este não muito
distante, nossos infantes brincavam e cantavam as coisas mais simples da sua
faixa etária. Agora, porém, eles são seduzidos por uma infinidade de
brincadeiras, jogos e músicas que, muitas vezes, não respeitam a pouca idade
desses indivíduos. O resultado dessa maturação antecipada já é sentido de
várias formas, sobretudo na formação humana desses futuros cidadãos.
É nesse momento que a
lembrança dos programas infantis do passado ganha força. Balão Mágico, Castelo
Ratimbum, Sítio do Pica Pau Amarelo, Xou da Xuxa, Vovó Mafalda, dentre outros,
exerciam uma tremenda influência positiva na educação pueril. As canções tinham
como foco o aprendizado de coisas uteis as crianças. Conhecer as primeiras
letras e os números estava dentro desse repertório. Os quadros apresentados em
cada programa mantinham também essa mesma linha. Por outro lado, as músicas não
se resumiam apenas a questões didáticas. A fantasia, a magia, o imaginário eram
cantarolados por lindas letras que até hoje são lembradas com saudosismo por
muitos adultos. “Atirei o pau no gato”, “uni-duni-tê”, “lua de cristal” são
bons exemplos de canções desse tipo. Hoje não se vê mais esse trabalho lúdico,
porque os menores são facilmente atraídos pelos ritmos do momento, que nem
sempre contém um vocabulário apropriado para a idade deles.
E os programas da
atualidade, que tentam manter uma tradição infantil, lutam contra essas
transformações sociais para levar o melhor para os pequeninos do outro lado. Mesmo
assim, são infestados de desenhos animados, na maioria violentos, para tentar
manter a audiência desejada. Sem contar que o horário da programação é
demasiadamente reduzido para dar espaço a programas de auditório, de culinária,
de qualquer coisa, menos de algo voltado para criança. Este descaso se dá porque
a inocência de outrora, se não morreu, está prestes a falecer. Não só porque
faltam investimentos das mídias televisivas nesse sentido, mas porque há uma
carência de pessoas desejosas a trabalhar exclusivamente com esses pequenos
seres. Entre os poucos que ainda permanecem incansáveis, Xuxa é um bom exemplo.
“É bom estar com você, brincar com você. Deixar correr solto o que a
gente quiser [...]”. Essa frase da música Doce Mel, a qual embalava a chegada
de Xuxa todas as manhãs descendo de sua luminosa nave espacial, com certeza
marcou a infância de muita gente. Ela que, sem dúvidas, foi e ainda é a maior
referência quando o assunto em voga destina-se a temática infantil. Mesmo com
as polêmicas nutridas ao longo da carreira, é indiscutível não pontuar o legado
da menina alta, loira, magra, de olhos extremamente azuis e com voz de criança,
que encantou a todos em meados dos anos 80 e 90. Como uma verdadeira aparição,
Xuxa hipnotizava indivíduos de faixas etárias diversas, principalmente as
crianças. De sua geração, ela também serviu de modelo para outras
apresentadoras como Angélica e Eliana, ambas com trabalhos semelhantes ao da
Rainha dos Baixinhos. Acontece que enquanto as outras sucumbiram a outros tipos
de programas, Xuxa continua ligada ao seu passado infanto-juvenil. O incessante
trabalho Xuxa Só Para Baixinhos, já está na 12° edição com imenso sucesso. E
isso acontece porque muitos adultos, preocupados com o que seus filhos andam
brincando e ouvindo, optam por um material mais lúdico, do qual a fase da
criança, com sua inegável incipiência, seja respeitada.
“Tá na hora, tá na hora. Tá na hora de brincar [...]”. Cantava a
apresentadora aos seus inúmeros fãs. Ao ouvir tal letra, de fato, dá uma
vontade de voltar a ser criança e se deixar levar pelo universo dela. Pular corda,
ou amarelinha, soltar pipa, correr, brincar de pique-esconde, de casinha, estas
eram as brincadeiras mais marcantes desse período. É evidente que tais
atividades não desapareceram da atmosfera infantil. Há muitos que brincam dessa
forma, porém, devido a diversas mudanças tecnológicas, essas elas foram
paulatinamente substituídas. Agora a internet, com a suas redes sociais e uma
infinidade de outras coisas, tolhe o direito da criança de ser ela mesma, hipnotizando
esses pequeninos cada vez mais cedo. Percebemos isso com a febre dos vídeos games
tanto online quanto offline. Também com as salas de bate papo, onde crianças,
sem o devido acompanhamento de um adulto, são levadas a uma sexualidade precoce,
muitas vezes ocasionando traumas futuros. Sem contar que o computador
substituiu a rua e com ela as atividades lúdicas mais saudáveis para essa fase
da vida. O reflexo disso é sentido em jovens frustrados emocionalmente,
estressados, rebeldes e muitas vezes sedentários.
Enquanto a sociedade
fica inerte a tudo isso, muitos meninos e meninas são maturados precocemente e
não enxergamos os perigos disso. De um lado, meninas de salto alto, maquiagem
pesada e roupas extremamente extravagantes. Do outro, meninos cada vez mais
rebeldes, violentos e muitas vezes indisciplinados. Tudo isso porque não
viveram plenamente a infância como crianças, mas como mini projetos de adultos,
testados de forma errônea e preparados da mesma maneira. Por essa razão, sinto
falta de Xuxa, ou de outra Xuxa, e desejaria que as crianças de hoje tivessem a
oportunidade que eu tive, bem como outros da minha geração tiveram, de serem
crianças. Talvez assim, os males da juventude e da maioridade, que insistem em
manchar de vermelho as páginas dos jornais, ganhasse outra tonalidade. Porém,
para que isso ocorra, pais, educadores, apresentadores e a sociedade em geral
devem trabalhar juntos em prol desse grupo. A infância é muito rápida, então, é
bom ser moleque enquanto puder.
7.8.13
4.8.13
Nem tudo que reluz é ouro
Numa sociedade tão apegada às aparências como o nossa, é indiscutível o apreço pela vaidade. Isto é perceptível de várias formas, seja através das academias de ginásticas, das indústrias de cosméticos e de cirurgias plásticas, seja na imposição midiática, a qual dita padrões de beleza, muitas vezes inalcançáveis. Então, parece que ninguém está imune das armadilhas da vaidade, mesmo que alguns discordem disso. Na verdade, em menor ou maior grau, somos todos vaidosos, mas de formas e maneiras diferentes. Essa máxima, num primeiro olhar, parece óbvia, porém há aqueles que insistem em discordar disso dizendo que não fazem parte desse mundo onde a busca pela beleza dita as suas regras. De fato, concordo que nem todos são adeptos das excentricidades exigidas para se tornar “belo”, nessa cultura que discrimina o “feio”. Entretanto, consigo enxergar em muitos desses indivíduos uma vaidade mascarada, a qual se apresenta discreta, mas ao mesmo tempo marcante.
Para sustentar a minha tese, analisei um senhor que trabalha nas proximidades do meu trabalho. Sua função é guardar carros no estacionamento privativo no centro da cidade de Recife. Ao olhar para ele, percebi um homem como muitos outros. Suas vestes, para a função que ele exerce, estavam superapropriadas para o clima recifense que ora está muito quente, ora com chuva e até certo frio. Ele vestia, como todos os dias, uma bermuda e uma camiseta regata bem vagabundas, um boné meio envelhecido e uma sandalinha de dedo na mesma condição. Roupas simples, para mais um cidadão simples que estava ganhando o seu sustento honestamente. Acontece que quando prestei mais atenção nele, percebi que possuía alguns adornos que contrastavam com a simplicidade da sua roupa. Ele tinha um grande colar de ouro no pescoço, digno dos grandes cantores de Rap americanos, pulseira, relógio, brincos e anéis também todos de ouro, com um brilho e um zelo que sobressaltavam o olhar de qualquer um mais observador. Daí, percebi que a vaidade não está restrita aos padrões ditados pelo mundo da moda, mas que se manifesta de inúmeras formas e em pessoas variadas.
A partir desse exemplo, comecei a ampliar a minha visão para outros grupos vistos e considerados socialmente fora de moda ou desprovidos de vaidade. Dentre eles, lembrei de cara dos roqueiros, hippies, e os mais badalados do momento, os “alternativos”, grupo composto por jovens largados, no que se refere ao quesito estético. No entanto, percebi que mesmo sem cuidados tradicionais com as roupas e os cabelos, estes indivíduos apresentavam outras características peculiares que poderiam sim ser tachadas de vaidade. Suas roupas geralmente trazem a estampa de alguma banda ou grupo favorito de tais comunidades. A maquiagem, no caso das meninas, é leve ou mais enegrecida, não apresentando muitas cores. Alguns meninos se maquiam também, mas isso vai depender da tribo da qual façam parte. Neste sentido, os “Emos” dão maior liberdade aos meninos de maquiar suas faces. Além do corpo e rosto, o cabelo também merece uma atenção especial. São cabeleiras volumosas, tanto entre eles quanto entre elas, com cachos assimétricos que podem ter uma pequena presilha ou simplesmente algumas sacodidas com a mão. Esse visual desleixado, aparentemente simplório, esconde uma grande vaidade, a qual serve de instrumento para que cada membro faça parte de determinados mundos.
Nessa linha de raciocínio, outro grupo tolhido de exercer a vaidade é o dos evangélicos. O protestantismo, como se sabe, é um dos segmentos religiosos que mais cresce no país. Tal amplitude requer inevitavelmente mais e mais templos para receber seus fiéis. Nesse sentido, o discurso de algumas igrejas sustenta a ideia de que seus membros devem se portar formalmente no tocante as vestes. São ternos e gravatas para os homens e saias e vestidos para as mulheres. Os “modelitos”, geralmente os delas, no passado, eram cafonas, com cortes rentes e sem muito trabalho estético. Os calçados seguiam a mesma linha. Sapatos que de tão idênticos pareciam que tinham sidos padronizados para serem usados na igreja. E os cabelos? Cortes neutros nos rapazes e as moças com os seus tradicionais coques. Maquiagem, nem pensar! Caso usassem, era algo bem singelo, apenas para tirar a palidez do rosto. Contudo, o que se vê hoje é outra realidade. O tradicionalismo ainda resiste, claro, mas muitos evangélicos já ousam quebra-lo. São lindos vestidos, saltos e penteados nas meninas. E, entre eles, a elegância vem aproximando esse público da vaidade, tão criticada e vista por muitos como “pecado”.
Todos esses casos demonstram que há entre nós um cuidado cada vez maior com a aparência, a qual pode não ser aquela clássica ou aceita pelo excludente mundo da moda, mas que é tão legitima quanto às outras. Na verdade, isso é o resultado de uma cultura da beleza que indiretamente atinge as pessoas, sobretudo aquelas que se acham mais distantes os “desantenadas” das tendências da moda. Impossível não estar antenado aos modismos que a todo o momento surgem na sociedade. Para isso, a mídia entra mais uma vez como potencializadora desse assunto. Refletindo tudo o que acontece nas suas telas, ela nos bombardeia com seus corpos perfeitos, seus penteados e roupas do momento, cortes de cabelo, perfumes, joias entre tantos outros objetos e utensílios capazes de embelezar o público em geral. O resultado disso é uma sociedade refém da moda, o que de modo geral não é ruim, visto que manter uma boa aparência, ou estar bem do jeito que se desejar, é algo salutar, pois revigora a autoestima, mantém o corpo e mente bem cuidado e, em alguns casos, proporciona ganhos no trabalho e na vida.
O que não pode é exceder determinados limites, porque os exageros permitem a perda da identidade humana. Ou seja, muitos, de tão cirurgiados, fotoshopados e excessivamente malhados, mais parecem protótipos de beleza, verdadeiros manequins de carne e osso, do que seres humanos. Também não se pode desconsiderar a importância da vaidade, moderada, e dizer que ela não faz parte da nossa vida. Reiterando, entendo que nem todos sejam fãs da cultura pop da beleza, a qual valoriza mais o corpo do que o cérebro. Sei também que muitos preferem ignorar a existência desses mundos, como se fosse uma rota de fuga, a qual subverte e critica essa imposição padronizada impelida pela beleza na atualidade. Porém, isso não é argumento suficiente para desvalorizar a vaidade. Acredito que seria muito mais fácil dizer que há múltiplas vaidades e que elas devem ser vistas sem os olhares “especializados” dos grandes estilistas, pois estar na moda é usar o que te faz bem e, como diz o dito popular: estilo, cada um tem o seu.
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