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11.3.13

O caminho da morte




Na antiguidade, o uso de ervas alucinógenas era comum como ferramenta de transcendência, para que o indivíduo encontra-se nos efeitos inebriados das plantas algo sobrenatural que pudesse confortar a sua alma e seu espírito. Hoje, porém, usar drogas não está mais fincado nessa relação espiritual. Com o advento da globalização, não foram só as máquinas que se industrializaram, mas também as pessoas. Elas que foram obrigadas a se industrializarem, numa sociedade onde o capital dita as regras e impõe poder, criando as históricas diferenças que marginalizam uns e atormentam outros. Dessa relação, era de se esperar que o escapismo fosse à válvula usada por muitas pessoas para fugir de tal realidade, porém este escape tem encurtado a vida de anônimos e notáveis, levando-os a caminhos sem volta.

Há diversas rotas que podem levar a morte. Em alguns casos, porém, uma vida autodestrutiva é capaz de agilizar tal processo, levando vários indivíduos a acelerar o contato com o outro lado da vida. Na atualidade, um dos caminhos mais perigosos nesse sentido é o que está fincado no uso de drogas, sobretudo as ilícitas. Transgressoras, elas são comumente utilizadas nas grandes periferias nacionais, bem como nos luxuosos bairros habitados pela nata social, comprovando que o uso de entorpecentes não está inteiramente ligado ao abismo financeiro que segregam pobres e ricos, mas sim na marginalização da alma, na qual pessoas desamparadas recorrem ao proibido para se sentirem vivas nesse mundo onde a vida, infelizmente, tem perdido o seu real sentido.

Enquanto aqueles que não têm dinheiro encontram nas drogas os subsídios para a marginalização, os que possuem um maior poder aquisitivo usam-nas porque estão à margem de si mesmos. Em ambos os casos a palavra escapismo controla as mentes daqueles que por alguma fragilidade aceitam o contrato de autoaniquilação formulado pelas drogas. Foi o que aconteceu com o cantor e compositor Chorão, integrante da Banda Charlie Brown Jr. Famoso, ele apareceu morto no seu apartamento e, segundo informações midiáticas, a causa da morte foi overdose. Este caso reacende a discussão da periculosidade das drogas na atmosfera artística, tanto nacional como internacional.

Ele é mais uma vítima vencida pelas drogas. Mais um entre tantas outras celebridades que sucumbiram a uma vida de glória, todavia deslocada, vazia, sem direcionamento, repleta de carências, as quais não podem ser preenchidas com dinheiro, fama e sucesso. A morte de Chorão é o reflexo de uma sociedade doente que encontra na entorpecência uma fórmula mágica que seja capaz de curar as feridas causadas pela falta de foco, pela depressão e por todos os sentimentos nefastos que escurecem a mente daqueles mais fragilizados, fazendo-os entender que há uma solução ao ingerir substâncias que “aliviam” suas dores. Ledo engano, pois o que de fato pode aliviar as mazelas humanas não está contido em comprimidos, pós, baseados e outros utensílios do gênero, mas na capacidade de encarar os problemas de frente e tentar resolvê-los sobriamente.

Em contrapartida, nem todos têm a força necessária para enfrentar a guerra contra as drogas. Nas regiões mais periféricas do país, elas angariam vidas de pessoas desde cedo. Crianças e adolescentes são corrompidos pelos efeitos da maconha, do craque, da cocaína e de tantas outras, mas o que de fato atrai o contato da juventude com tais substâncias é a facilidade de compra e venda que elas oferecem. Muito consumidas, elas se tornaram mecanismos rápidos para o enriquecimento de traficantes cada vez mais jovens, que arriscam suas vidas ingerindo e comercializando tais entorpecentes. Tudo isso porque, infelizmente, no caso deles, não houve uma segunda chance de mudarem de vidas.

Numa sociedade marcada pela desigualdade social, já era de se esperar que a marginalização tomasse conta de uma parte significativa da população. Pessoas que são impelidas a entrar nesse mundo escuso, muitas vezes para sobreviver da pobreza e miséria, as quais insistem a em por à margem aqueles que são esquecidos pelo poder público. Disso resulta na formação de um problema cíclico: descaso, que leva a marginalização, que leva à violência, que amplia o contato da sociedade com as drogas e que leva inevitavelmente a morte. Fim que desemboca no mar de brutalidade das balas nos guerrilheiros encontros entre policiais e traficantes. Ou nos suicídios dominados pelas overdoses, como o que acometeu o cantor Chorão, bem como muitos outros que encontraram na mistura perigosa de entorpecentes a receita para abandonar seus tormentos.

Além das ilícitas, deve-se pontuar que há outras drogas consideradas “menos” perigosas que circulam livremente pela sociedade e passam despercebidas por ela. O álcool é uma delas. Vendida e comercializada abertamente, cervejas, vodcas, whiskies, são mercantilizados pela mídia, a qual se utiliza de um discurso contraditório para vender tais produtos. Nos comerciais aparecem lindas mulheres, sensualizando com caras e bocas e mostrando ao telespectador de várias idades que consumir essas bebidas é algo natural e, possivelmente saudável, já que em numa das publicidades aparecem homens com cirrose, cometendo acidentes de trânsito, ou agredindo parentes e amigos depois de estarem sob o efeito excessivo dessas drogas.

Seja como for, todas as vezes que o uso de drogas, lícitas ou não, é feito de maneira inconsciente e irresponsável, o resultado é, lamentavelmente a morte. Ela que vive a espreita, oportunizando os cadáveres a cada baseado ou comprimido ingerido. Ela que se alimenta da miséria humana, seja aquela fomentada pela desigualdade social que distanciam pobres e ricos; ou a que é criada dentro de indivíduos fracos emocionalmente, encontrando nas suas fraquezas as brechas necessárias para embalsamar mais um corpo. Nos dois casos, porém, há uma relação de estatística, a qual diz que no duelo entre o homem e a droga, esta última continua a ganhar a luta. Para fugir dessa realidade é preciso entender que existem outras formas de encontrar a paz interior, sem necessariamente recorrer de forma abrupta ao uso dessas substâncias. No entanto, o homem precisa primeiro buscar meios para se encontrar nessa sociedade onde muitos são obrigatoriamente perdidos e outros escolhem se perder por conta própria.

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