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6.8.12

CULTO NOVO




Culto novo
José Luiz da Cunha Fernandes

Julho de 1984, primeiro dia meu em Atenas. Cheguei até a janela do hotel e procurei a paisagem, mas não vi nada do que esperava. Apenas os telhados de algumas casas. Decepcionado, já me voltava para o interior do quarto quando avistei um terraço que me chamou atenção.
Uma casa velha tinha o terraço todo demarcado com retângulos, algo parecido com estacionamento de carros. Reparando bem, vi que os retângulos eram pequenos, todos numerados e vários ocupados por jovens que dormiam junto a suas mochilas. Era uma pensão, não um estacionamento.
Nos dias seguintes, me familiarizei com a visão desses e de outros turistas que, vindos de vários pontos da Europa, pareciam estar em toda parte com grandes mochilas às costas, sob o forte sol do verão grego. São vistos nessa época em muitos recantos da Grécia, estradas, montanhas, ilhas, museus, muitos visitando locais de interesse histórico, sítios arqueológicos, fotografando, consultando e tomando notas.
Curiosamente, naquela mesma ocasião, a milhares de quilômetros dali, centenas de outros jovens estavam programados para realizar feitos notáveis, sob cobertura fantástica dos veículos de comunicação. Estavam sendo realizados os Jogos Olímpicos, cujas notícias repercutiriam largamente em todo o mundo, graças, em parte, à força da mídia e a conhecidos interesses de promoção.
Entretanto, não chegariam aos noticiários aqueles jovens que via dormindo em vagas numeradas no cimento. O que faziam ali? Anonimamente, superavam muitos obstáculos e também realizavam façanhas físicas. Não buscavam recordes, mas, provavelmente, muitos procuravam conhecer origens de tudo ou quase tudo que somos ou pensamos.
A Grécia Antiga eternizou-se pela força de suas ideias. A simples visão daqueles jovens dormindo terminou por me fazer refletir sobre velha tema da filosofia: a união e o equilíbrio entre mente e corpo. Estaremos vivendo época especial, em que o culto do físico vai se transformando em um novo tipo de mal du siècle?
O culto do físico, o culto do corpo é necessário e, sem dúvida, uma das coisas mais deleitáveis da vida. Estranhável é como interesses comerciais e vícios consumistas conseguem extremá-lo isoladamente, dissociando-o da inteira dimensão humana. Os veículos de comunicação bombardeiam-nos, todo o tempo, com imagens de bem sucedidos atletas, sugerindo que compremos os mais diferentes produtos. E dificilmente poderia ser atribuído a simples espírito desportivo o lema utilizado em algumas grandes empresas: “Adote um atleta”.
Toda essa promoção tem aspectos positivos, mas revela gritante desequilíbrio. Não chegarei a propor outro lema, como, por exemplo: “Adote um intelectual”. Muitas empresas não teriam a menor simpatia pela ideia, embora – convenhamos – intelectuais possam ser tão carentes quanto os atletas. Por outro lado, que sucesso teriam campanhas publicitárias que utilizassem a imagem de intelectuais? Dificilmente a venda de um produto seria aumentada com um vídeo de Drummond caminhando com o tênis dos vencedores ou usando o barbeador dos grandes campeões.
Certo é que não devemos exagerar nem, muito menos, exagerar só num sentido. Cultuemos o corpo. Ainda que haja sempre um esquema comercial em torno de tudo isso, cultuar o corpo é cultuar a vida. Porém, numa época de crise geral de valores, época de crise de exemplos, época de falência moral das elites, a saída e o objetivo vital não estarão só em corpos sarados e no consumismo que desfila em roupinhas esportivas por aí. Há que estimular, também, a sensibilidade artística e o intelecto.
Talvez já seja tempo de moda nova. Tempo de cultuar as ideias. As ideias e, mais do que nunca, a livre expressão das ideias.

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