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1.8.12

CONTANDO DINHEIRO II

LEVES PINCELADAS

(no trigésimo ano da morte de Aloísio Magalhães)

José Luiz da Cunha Fernandes


Outra dispendiosa campanha publicitária divulga que o Real tem agora uma nova família de cédulas, embora pareçam irmãs das primeiras, ou as primeiras com retrofit. O nome família parece soar bem, como alegoria técnica, sobretudo se dito com ar sério. E as novas cédulas são graciosas, produzidas como foram no renovado parque fabril da Casa Moeda em Santa Cruz - por coincidência, nome da terra da qual a carta de Pero Vaz de Caminha já dizia que “em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”.

São graciosas, são mais seguras e isto já é muito;  a nenhum índio ocorre pesquisar o custo da  produção de cédulas e de moedas, nem compará-lo adequadamente ao custo do dinheiro de outros países. No entanto, a fabricação do dinheiro é, internacionalmente, um curiosíssimo ambiente de monopólios ou exclusividades (de fabricantes, fornecedores, equipamentos, insumos), frequentemente arriscado à formação do que poderia ser chamado de “cadeias de felicidade”. Sem risco de outras cadeias, aparentemente.

Foi a partir de 1970 que, dotada de instalações e equipamentos viabilizados por forte suporte financeiro do Banco Central, a Casa da Moeda, além das moedas metálicas,  passou a fabricar as cédulas do nosso dinheiro. As notas brasileiras eram, até então, importadas de fabricantes estrangeiros como  American Bank Note e Thomas de La Rue.

Certo é que a primeira vez em que vi o termo família aplicado ao dinheiro foi para designar, muito precisamente, o conjunto completo das primeiras cédulas nacionais, ou melhor, as cédulas que, projetadas por um renomado designer contratado pelo Banco Central,  foram (ressalvadas precárias experiências anteriores)  as primeiras fabricadas no Brasil. As cinco cédulas projetadas por Aloísio Magalhães foram lançadas em circulação simultaneamente, em maio de 1970.  O conjunto compreendia os valores de 1, 5, 10, 50 e 100 cruzeiros.

Exemplos de cédulas da “primeira família”:
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Posteriormente, o termo foi usado para designar outro conjunto completo de cédulas: as cinco  lançadas simultaneamente em circulação em setembro de 1981, compreendendo os valores de 100, 200, 500, 1.000 e 5.000 cruzeiros, todas também projetadas por aquele genial designer. Eram a segunda família projetada por Aloísio, com características (leiaute organizado a partir de uma simetria em dois sentidos etc.) completamente diferenciadas da primeira família,  lançada onze anos antes. Essa segunda família (“cartas de baralho”) foi como que prenunciada por uma nota de 1.000 cruzeiros (efígie do Barão do Rio Branco), com larga área branca no anverso, lançada a toque de caixa ao apagar das luzes do governo Geisel (dezembro de 1978) e que ficaria conhecida como “estampa A” da cédula desse valor. A estampa B viria a ser a cédula de 1.000 cruzeiros lançada no conjunto completo de 1981.

Exemplos de cédulas da “segunda família”:
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Depois da morte de Aloísio (1982), o Banco Central lançou, a partir de novembro de 1984,  uma nova linha de cédulas para a qual não se atribuiu o termo família. O livro “O dinheiro brasileiro”, editado pelo BC em 1999, registra erroneamente, como também pertencentes à citada segunda família,  cédulas de 10.000 cruzeiros (efígie de Rui Barbosa) e outras subsequentes.

Na realidade, estas viriam a ser as primeiras notas de uma linha de mais de 15 cédulas cuja principais características foram: a) a estreiteza do tempo disponível para desenvolvimento dos projetos, diversamente de outras épocas; b) a sua temática, afastando-se da reverência a vultos da história política (efígies de governantes e militares) até então predominantes, e marcada pelo cuidado em registrar, no extraordinário veículo de comunicação que é o dinheiro circulante, grandes expressões nacionais no campo da cultura, arte e ciência (incluindo Villa-Lobos, Machado de Assis, Portinari, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Drummond, Cecília Meireles, Vital Brazil, Mário de Andrade e outros)

Ainda está por ser contada a integral história das circunstâncias em que foram desenvolvidos  projetos de  cédulas e de moedas desde 1983 até o advento do Real. Cerca de dez anos de singular história, ainda que nessa área não falte singularidade de fatos em anos bem mais recentes.

Exemplos de cédulas da linha iniciada em 1984 com a efígie do jurista Rui Barbosa e culminada em 1993 com a do educador Anísio Teixeira: 
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Em 1989, por exemplo, foi lançada uma cédula de 200 cruzados novos comemorativa do Centenário da República. Ela exibia uma efígie da República, criada pela saudoso artista Álvaro Martins, a partir de um busto da Antiguidade a que ele buscou acrescentar algo que lembrasse o barrete frígio. Por sugestão oriunda do Banco Central, a efígie veio acompanhada harmonicamente da gravura de vultos republicanos históricos e da reprodução do célebre óleo “Pátria”, de Pedro Bruno, onde se vê uma bandeira do Brasil sendo bordada no seio de uma família.

Essa efígie clássica foi, quatro anos depois, reaproveitada improvisadamente na compreensível pressa  da criação das cédulas do Real, aparecendo (para surpresa internacional) no anverso de todas as nossas notas, contrapondo-se essa mesmice a reversos em que se vêem araras, macacos e outros bichos.

Cédula comemorativa do Centenário da República (1989)
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“Cédula de 100 reais (da linha cujo lançamento tem continuidade em 2012)
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 Na atualidade, quando o Real já existe faz mais de 18 anos, que força ou fraqueza externa terá inibido a criatividade de respeitáveis técnicos e artistas do BC e da Casa da Moeda?

Paradoxalmente, quando a moeda de nosso país tornou-se e segue relativamente forte e estável, e quando a Casa da Moeda passa a dispor de avançados e caríssimos recursos tecnológicos, grandes vultos da história nacional permanecem escondidos em moedas de centavos, enquanto a fácil temática “zoológica” das moedas metálicas que circulavam emergencialmente em 1992 e 1993 segue - como improvisação que se perpetua -  alçada para as cédulas.

Desafia-se quem identifique Tiradentes em moeda circulante de 5 centavos. E a nota brasileira de mais elevado valor traz, no anverso, como todas as demais,  uma efígie da República pescada daquela antiga cédula de 200 cruzados novos, enquanto, no seu reverso, cultuamos o alto valor nacional que é a garoupa.

José Luiz da Cunha Fernandes, 31 de julho de 2012

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