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12.8.12

CATAGUASES, 1960


CATAGUASES, 1960: discurso pouco feliz de um candidato a presidente. (Impostos são tema sensível em Minas desde a Inconfidência...) Ainda assim, em Cataguases, Jânio foi derrotado por Lott na eleição daquele ano.
O texto trata de episódio acontecido em Cataguases em 1960. Foi publicado no jornal ESTADO DE MINAS ainda nos anos 80, quando o autor, que foi vice-presidente da República, era vice-presidente da FIEMG.


POLÍTICA E ARROCHO FISCAL
José Alencar Gomes da Silva

 Almoço na casa de Pedro Dutra (chefe político do PSD), aparecendo D. Flávia Fernandes Dutra entre o general Lott e o general Américo Braga; atrás, em pé, Martha Fernandes, que foi inspetora escolar e diretora da Biblioteca Estadual em Belo Horizonte.

Mil novecentos e sessenta. Estávamos em plena campanha eleitoral e os candidatos à Presidência da República eram, de um lado, Jânio Quadros, apoiado pela UDN, e de outro, o marechal Henrique Lott, candidato do PSD.
Em Minas, a UDN tinha como candidato a governador o sr. Magalhães Pinto, banqueiro de fala mansa e modestos recursos de oratória, e o PSD exibia nada mais nada menos que Tancredo Neves, orador primoroso e na plenitude de sua forma.
Era governador de Minas o Sr. Bias Fortes, pessedista de Barbacena, correligionário e amigo de Tancredo, que ocupara em seu governo o cargo de secretário das Finanças e era considerado, na época, um dos mais competentes secretários de Estado que haviam passado por aquela pasta. Tancredo primava pela eficiência na fiscalização. Estabeleceu verdadeira operação de guerra no trabalho fiscal. Abriu postos de fiscalização, adquiriu frotas de jipes para facilitar o trabalho dos fiscais, que pintaram e bordaram por todo o Estado. Os contribuintes reclamavam através de suas entidades de classe e Tancredo argumentava com a maestria que lhe era peculiar. É que não lhe chegava ao conhecimento toda a verdade sobre o procedimento arbitrário junto aos contribuintes que, de sonegadores, tinham pouco, a não ser a fama, que crescia na humildade com que recebiam os fiscais, dando-lhes a falsa impressão de que as contas estavam erradas.
A campanha eleitoral era coberta por sedimentada estrutura partidária. Havia diretórios organizados em todo o Estado. PSD e UDN eram grandes partidos e o PTB também. Este, coligado ao PSD, levava o nome do Sr. João Goulart disputando a vice-presidência em reeleição. Ele era vice de Juscelino, que concluía seu mandato com a popularidade mais que intacta, fortalecida.
Tancredo disputava com o apoio do partido que ocupava os Palácios da Liberdade e do Planalto. Houve problemas, é verdade: o Sr. Ribeiro Pena e o Sr. José Maria Alkmim, por exemplo, aprontaram dificuldades para a unidade partidária. Mas Tancredo era muito forte e ninguém duvidava de sua vitória. Nem mesmo seus adversários, ainda que não o dissessem, obviamente. O homem visitava as cidades do interior como virtual governador de Minas. Tanto que os empresários, mesmo os pessedistas de quatro costados, não estavam achando muita graça. Já mostravam sorriso meio amarelo, como se sentissem medo da vitória.

 Na foto, a entrada de Lott em Cataguases, pela então "Ponte Nova". No jipe, veem-se Lott e Tancredo Neves, com Pedro Dutra entre eles. O Tiro de Guerra 77 aparece perfilado.

Naquele tempo, morávamos em Ubá, terra de Ary Barroso e de nossos saudosos amigos Ozanan e Campomizzi. Era um domingo de sol em céu translúcido, límpido, prenúncio de calor muito forte. Tomávamos o café da manhã quando o telefone tocou. Interurbano de Cataguases. Dona Flávia Fernandes Dutra, esposa do dr. Pedro Dutra, chefe pessedista daquela importante cidade, queria falar com seu irmão Homero, meu cunhado, que me alegrava com sua visita por alguns dias. Voltando do aparelho, Homero, que morava no Rio e viera a Ubá, via Juiz de Fora, perguntou como deveria estar a estrada de Ubá para Cataguases. Informei que não haveria problema. Eram cerca de sessenta quilômetros em estrada de terra. – Uma hora e meia, no máximo, disse.
- Minha irmã está nos convidando, informou Homero, para a grande concentração política de hoje em Cataguases. O comício está marcado para as onze horas. O almoço será servido em sua casa, onde o marechal Lott e Tancredo receberão as lideranças de toda a região. Segundo ela, entre os que já chegaram a Cataguases e os que estão chegando hoje, há mais de cinqüenta correligionários , importantes líderes em seus redutos. Ela alimenta alguma esperança na vitória do Lott. Quanto ao Tancredo, ninguém mais discute. É como se fosse uma nomeação. Como é? Vamos até lá? Vai ser divertido. É um programa diferente, com poeira e caviar.
Homero era um verdadeiro príncipe: inteligente, muito culto e civilizado. Humor britânico. Foi pena que tivesse morrido. E morrido relativamente novo.
Chegamos a Cataguases um pouco antes do comício e fomos diretamente à Praça Rui Barbosa, local da concentração. Estacionamos o carro nas imediações, batemos a poeira e fomos ao bar principal, onde lavamos o rosto e tomamos café. Pronto. Estávamos no meio do povo e muito bem situados. Conseguimos uma sombra. No palanque já se viam alguns gatos pingados. O “speaker” (este é o primeiro a chegar) testava o som. Muito bom, por sinal, coisa rara naquela época. Em Ubá, o nosso era péssimo. Aparelhagem pobre e, mesmo com a autoridade de melhor eletricista da região e com a santa malandragem de crioulo presidente de escola de samba, Nilton Chinelo não lhe dava jeito. Pensei: – A parte elétrica aqui é com a Força e Luz Cataguazes-Leopoldina, que deve ter fornecido essa excelente parafernália de microfone, fios e alto-falantes. Mas o dr. Ormeo é da UDN. Não iria colaborar em comício do Pedro Dutra. Sim. O dr. Ormeo é da UDN mas, antes, é um cavalheiro e não se furtaria à atenção. – Talvez o som seja da própria estação de rádio, pensei.
De repente percebe-se ruidoso movimento de carros e de povo entrando na praça. Eram os homens. O locutor começou a falar e com estridente entusiasmo anunciava a chegada de “Sua Excelência o Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, digníssimo candidato à Presidência da República pelo Partido Social Democrático. Com ele o futuro Governador de Minas, dr. Tancredo de Almeida Neves. Os candidatos chegam pelas mãos do grande chefe político de Cataguases, dr. Pedro Dutra”.
O palanque está superlotado e o calor é brutal. Não há proteção contra o sol que atinge em cheio a todos os que lá se acotovelam. Naturalmente que a figura central é a do candidato à Presidência da República. Vermelho como um pimentão, suava por todos os poros e o intenso brilho do sol , fortíssimo, castigava duramente sua cabeça. Seu lenço, usado para enxugar o suor do rosto, já não enxugava. Estava ensopado. E os discursos eram longos. O primeiro a falar foi o dr. Pedro Dutra, que fez uma abertura digna daquela festa incomum. Falou como grande líder democrático de toda a região, oferecendo aos candidatos a sensação de que a vitória estava assegurada. Foi um belo discurso, objetivo e convincente. – O ideal seria que ficássemos em três pronunciamentos , pensei: o do chefe local, o do candidato a governador e o do candidato a presidente. Qual nada. Todo mundo queria falar e foi discurso e mais discurso. A gente percebia que o cansaço ia retirando das pessoas o interesse pelo acontecimento.
A essa altura, alguém sentiu que precisava providenciar alguma coisa para proteger o homem. Rapidamente aparece um crioulo empunhando um guarda-sol e um rapazinho branquelo trazia um ventilador portátil que, com rara habilidade, era movimentado pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, a uns vinte centímetros da nuca do Marechal. Macaco velho, Tancredo deu logo um jeito de se afastar para longe daquela sombra e daquele vento. – Coisa ridícula! Deve ter pensado.
Treze horas. Agora sim. O locutor anunciou a palavra de Tancredo Neves. Orador de primeira grandeza, Tancredo brindou-nos com maravilhosa peça, onde abordava a questões políticas, econômicas e sociais com a segurança de um estadista. Valeu a pena todo aquele sacrifício. Era um privilégio ouvir seus discursos. No palanque, todos queriam abraçá-lo . A eleição homologatória estava próxima e ali se encontrava, sem sombra de dúvida, o futuro Governador de Minas.
Intervém novamente o locutor, agora para anunciar o  clímax da festa. – Senhoras e senhores, abriu: “Neste instante, vai usar da palavra, diretamente do palanque oficial, instalado na Praça Rui Barbosa, em Cataguases, Estado de Minas Gerais, Sua Excelência o Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, digníssimo candidato à Presidência da República pelo glorioso e imbatível Partido Social Democrático, o nosso PSD. O PSD de Juscelino, de Bias Fortes, de Pedro Dutra”.
Todos nos preparamos para o grande momento. Trocamos o pé de descanso, limpamos a garganta e nos postamos atentos. Os primeiros minutos do discurso já nos desiludiam quanto à sorte do candidato. Houve um momento em que o Homero comentou: – Não vi o Jango. Será que ele não veio? Por que deixaria de estar aqui?
E o Lott continuava naquele discurso a que já não se prestava atenção. – “Neste ponto, dizia ele, quero pedir aos amigos cataguasenses que, ao sufragarem o meu nome, façam o mesmo em relação ao meu amigo Tancredo Neves. Não apenas pelo fato de ser ele um amigo meu. Quero que vocês votem neste mineiro trabalhador e competente. Aliás, vocês o conhecem bem. Como secretário das Finanças pôde demonstrar sua inteligência e capacidade de trabalho. Poderíamos dizer que Tancredo foi o único mineiro capaz de fazer mineiro pagar imposto.”
Ave Maria! Foi um deus-nos-acuda! Todo mundo achou muita graça e Tancredo sumiu. Saiu do palanque sem que se percebesse, tomou o carro e viajou. Não compareceu ao riquíssimo almoço servido por D. Flávia.

Enviado por José Luiz da Cunha Fernandes

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