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13.3.12

Quando eu era inocente

Quando eu era inocente, minha mãe me chamava de manhã para tomar café. Como num ritual, eu levantava, tomava meu banho e me encaminhava para a mesa. Comia o que podia, ou o que Deus tinha reservado para aquela manhã. Para isso, meus pais, muitas vezes, tinham deixado a própria fome morrer para saciar a minha, num sacrifício que eu reconhecia, mas não sabia como recompensar. Então, seguia para o colégio alimentado, como um amuleto de esperança recarregado que no futuro seria utilizado para retribuir todo o zelo de minha mãe e do meu pai.

Hoje que perdi a inocência, vejo que o meu passado humilde era cheio de luxo, pois crianças iguais a mim vivem numa extrema miséria, sem a certeza se iriam comer algo ao acordar. Seus pais não são muito diferentes dos meus, porém a desilusão tomou conta das suas almas. Seus filhos, diferente de mim, não foram para o colégio aprender e lutar por um futuro melhor, mas sim para ruas vender a infância por migalhas em forma de moedas. Talvez eles conseguissem o alimento do dia, talvez não.

Quando eu era inocente, não costumava me preocupar com nada, apenas com as minhas tarefas escolares. Depois disso, eu tinha o dia inteiro para brincar com os meus colegas na rua. Era tão bom jogar futebol nos descampados, empinar pipas no ar e fazer traquinagens típicas daquela fase da vida. Roubar frutas na casa do vizinho também fazia parte da diversão. Como também os passeios nos parques, ver os animais nos zoológicos e deixar a pele despelar depois de um bom dia de praia em família.

Hoje que perdi a inocência, percebo que brinquei demais, enquanto outras crianças como eu não tiveram tempo para isso. Elas estavam trabalhando para sustentar a família, carregando nas costas a penitência de uma vida dura, a qual não lhes deu a chance de optar por um destino melhor. Enquanto eu roubava frutos, eles roubam carteiras e assaltam pessoas desatentas para sobreviver. Enquanto eu passeava, eles faziam longas caminhadas em direção ao nada, que no fim tinha o sentido de tudo.

Quando eu era inocente, eu consegui terminar o colegial e ingressar na universidade. Para uma família pobre isso é uma conquista indescritível. É a única possibilidade de um morador da periferia ter um futuro melhor. Com muita dificuldade, consegui me formar depois de alguns anos, fato este que deixou meus pais muito orgulhosos. Sai dessa fase confiante, com a certeza de que conseguiria um emprego na minha tão sonhada área e, consequentemente retribuiria todo o esforço dos meus pais.

Hoje que perdi a inocência, me entristeço ao ver jovens da minha idade sem nenhuma perspectiva de futuro. Eles não sabem ler nem escrever. Não foram agraciados com o estudo, estavam ocupados demais na marginalidade, a qual captura as pessoas, como eles, esquecidas pela sociedade. Eles tiveram a esperança roubada. Seus sonhos foram destruídos pela fome, miséria, pelo descaso e, principalmente pelo esquecimento.

Quando eu era inocente, resolvi exercer o meu poder de cidadão no período eleitoral. Investiguei cada candidato. Pesquisei seus antecedentes para não desperdiçar o meu tão precioso voto. Fui bastante cauteloso, pois queria acreditar que a minha postura poderia solucionar a vida de muita gente que, como eu, era humilde e dependia desses representantes para transformar o país.

Hoje que perdi a inocência, vejo que tudo foi em vão. Os políticos que eu escolhi não cumpriram o seu papel. Pelo contrário, roubaram o nosso dinheiro e continuam soltos realizando falcatruas cada vez maiores. Consequentemente, o povo que eu queria ajudar continua na mesma. Sem educação, segurança e saúde de qualidade. Continuam passando fome e mendigando pão.

Quando eu era inocente, eu acreditava num mundo sem violência, onde as pessoas pudessem se respeitar mutuamente. Uma terra onde ninguém seria separado por classe social ou etnia. Não existiria diferença religiosa nem de condição sexual. As pessoas conviviam em paz com o diferente, pois ser desigual era uma dádiva, um presente que Deus, enquanto representante máximo da natureza, tinha nos ofertado.

Hoje que perdi a inocência, vejo que meu desejo não passava de um devaneio. As maiores violências da sociedade surgem das divergências. As pessoas não se entendem e não se aceitam. Etnias lutam entre si para provarem que existe uma melhor do que a outra. Muitas religiões perderam a sua ideologia de fé e amor e se venderam por dinheiro a falsos dogmas, os quais não pregam mais a união, mas a destruição e a desarmonia entre as pessoas.

Quando eu era inocente, ser honesto, fazer o bem, respeitar as pessoas mais velhas e contemplar a preservada natureza, faziam parte de uma escala de boas ações que todos os indivíduos deveriam seguir. Lembro-me de ter plantado uma árvore na escola, de ter ajudado um velhinho a atravessar a rua e de evitar contar mentiras, pois minha mãe me ensinava que elas retornariam para mim de forma brutal.

Hoje que perdi a inocência, presencio pessoas fazendo o mal, conscientes ou não dos seus atos. Não se respeita mais a sabedoria dos mais velhos. Eles não são mais importantes, pois são para nós seres inúteis e incapacitados pelo tempo. A natureza não é mais espaço de preservação, mas de consumo, de destruição. E mentir não é mais algo errado, e sim uma prática crucial para se viver nesse mundo de banalidades, do qual eu cresci Quando eu era inocente...

Um comentário:

byTONHO disse...



Não és mais inocente,
mas "VENCEU",
CRESCEU
e é muito sábio.
Parabéns DIOGO.


Abraço-tchê!

:o)