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10.3.11

Prisões invisíveis


Por mais que acredite na necessidade de ser transparente, acabo de descobrir que aquela minha máxima “pergunte o que quiser a meu respeito, que eu respondo”, não passa de um tremendo papo furado. E, mesmo sabendo que todo mundo tem uma ou duas perguntinhas para as quais não sabem, não querem ou não podem dar respostas, fiquei desnorteado quando me perguntaram: “Mas, você não se sente importante por haver tomado parte da História contemporânea do seu país?” Enrolei o máximo que pude, mas, por respeito ao interlocutor, optei por calar.

Sei de um bando de gente que, talvez, nesse exato momento, esteja bravateando sua participação nos movimentos estudantis dos Anos 60. Eu, entretanto, mergulhei em profundo e doloroso mutismo, sem ser capaz de encontrar uma única resposta que contemplasse a verdade, ainda que vista “do alto dos meus cabelos brancos” e mesmo depois de tantos anos de chopes, bares e conversa-fiada, continuo achando que a melhor resposta não é minha, é do Gabeira: "Éramos uns românticos”.

Então, como bom pensador, pensei. Olhei em volta, vi no que transformaram meu país 40 e tantos anos depois de todas as porradas que levei e não consegui identificar o futuro que aquela minha rapaziada queria. Pobreza, analfabetismo, desemprego, violência, corrupção, carência de perspectivas, subordinação aos capitais estrangeiros e um horizonte palmo e meio à frente do nariz.

Não foi para isso que apanhamos tanto. Não foi para isso que fomos presos, apanhamos, fomos torturados, apanhamos, desaparecemos, apanhamos e fomos mortos. Esse futuro não é o nosso! É dos vencedores, dos caras que escreveram a história oficial. Fomos reduzidos a vocábulos chulos, injustos e singulares e não ocupamos nem um parágrafo inteiro nos livros que eles escolheram para falar da gente para os nossos filhos.

Nosso futuro era culto, com liberdade de expressão, igualdade, chances para todos e, acima de tudo, cidadania e brasilidade.

Tudo bem que a gente também inventou os Stones, a maconha, o amor livre e os pegas de carro. Mas fazer o quê? Se eles não aceitaram o debate livre no plano das idéias, até que um pouquinho de anarquia não foi de todo uma má idéia. O que a gente não podia era ficar parado enquanto esperava as feridas cicatrizarem e a memória dos companheiros mortos se perder no tempo.

Fui invisível. Fui muitos de mim num garoto só. Adrenalina? Rebeldia? Necessidade de chamar a atenção? Falem o que quiser, estou pouco me lixando, mas demos nosso sangue para manter nosso país na mão dos brasileiros. Perdemos. Mas hoje, quando boto a cabeça no travesseiro, sei que tentei fazer minha parte. E da melhor maneira que sabia. Paguei caro. Tive que ser clandestino no seio da própria família, bem antes da clandestinidade oficial.

Agora, você me pergunta como me sinto por haver tomado parte da História... Bem, por falta de melhor resposta, vou roubar a frase do Gabeira: Fui apenas um romântico. Invisível aos olhos da repressão, enquanto foi possível. Clandestino em minha casa. Prisioneiro do imaginário (e da Rua da Relação e da Barão de Mesquita, também). E poeta, ontem e até quando me deixarem pensar. Mas, por favor, nunca mais me façam essa perguntinha outra vez.

4 comentários:

chica disse...

Puxa,Anderson, foste fundo aqui.Linda crônica daquele tempo onde tantas coisas aconteciam e outras tantas aconteceram e pessoas sumkiram, foram enterradas c0m outros nomes, etc e tal ... Incrível...Bom te ler sempre! abração,chica

Helena disse...

*
Quanto mais eu sei sobre a (tua) história, mais eu sei que tudo o que viveu é o que faz com que seja assim, tão transparente a ponto de dizer, com "uma dureza que não perde a ternura" o que, depois de tudo, ficou em teu pensamento e alma.

Não é difícil imaginar o que deve sentir esse coração ao olhar em volta e ver no que transformaram o país "depois de todas as porradas" e não conseguir identificar o futuro "que aquela rapaziada queria".

"Pobreza, analfabetismo, desemprego, violência, corrupção, carência de perspectivas, subordinação aos capitais estrangeiros e um horizonte palmo e meio à frente do nariz" é uma realidade dura demais para quem lutou, apanhou, foi preso e torturado "apenas" porque desejava um futuro culto, com liberdade de expressão, igualdade, chances para todos e, acima de tudo, cidadania e brasilidade.

Esse ainda é o sonho no qual a maioria de nós, por romantismo ou teimosia (inspirados por pessoas como você e tantos outros que fizeram a diferença na história desse país), ainda acredita.

E "pra não dizer que não falei das flores", é bom pensar que elas continuam vivas. E que a despeito de tudo, sempre haverão "os amores na mente, as flores no chão, a certeza na frente e a história na mão". Assim como ela está na tua.

Beijo grande!

Daniel Simões disse...

Parece Portugal: no 25 de Abril de 1974 dizem que acabou a ditadura. Até mudaram o nome da ponte de lisboa de Ponte Salazar para Ponte 25-de-Abril... só que se esqueceram de a atravessar para o outro lado... e aqueles que faziam parte do governo fascista ainda continuaram por lá... e os que por lá estão continuam a governar segundo uma ditadura chamada de democracia. É tudo fachada e são sempre os mesmos a mandar nos países: a elite banqueira!!!

Anne Lieri disse...

Anderson,que bela sua cronica!Um depoimento comovente e realista de quem sabe porque lutou e o que restou de toda aquela luta!Realmente muito triste o final dessa história para todos nós!Bjs,