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15.3.11

O TEMA de HOJE ( e próximos 30 dias ) no blog de DEBATE : A FAVOR & CONTRA é axatamente " LEGALIZAÇÃO DA PROSTITUIÇÃO. Leio Jabor e OPINE no blog A FAVOR & CONTRA

O doce veneno do pecado

15 de março de 2011 | 0h 00
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Fui ver o filme Bruna Surfistinha, o mais recente fenômeno de público e penso nas razões do imenso sucesso, para além das qualidades do filme, além do carisma de Débora Secco. Uma das razões é que a prostituta nos fascina. A chamada profissão mais antiga provoca intensa curiosidade nos caretas e pessoas "comuns". Em nosso imaginário, a prostituta conhece mistérios de liberdade que nos são vetados. Ela vive uma impalpável ambiguidade que nos enlouquece: ela vive no mal e dá prazer, ela é um mal e um bem, ela está entre a liberdade sexual e escravidão. As peruas a desprezam e invejam. A prostituta é um mito. Claro que não falo da prostituta real, pobre, sofrida. Não me refiro ao problema social. Falo das que povoam nossas fantasias imaginárias.
A prostituta antiga era o oposto das esposas santas. Hoje, nossas mulheres da "vida" são chamadas de "garotas de programa" e fazem da cultura do entretenimento tanto quanto os filmes sobre elas. A prostituta contemporânea não é uma marginal; ela está no centro do sistema, como os advogados, banqueiros ou dentistas. A exploração e violência continuam, claro. Mas a aura obscura do pecado se desfez. Antes, nossas bacantes se escondiam pelos cantos, trêmulas de vergonha. Agora, com a permissividade pós-tudo, ser uma "mulher da vida" é uma profissão mais nobre do que a vida de muita perua casada (também uma profissão rentável). Aliás, o nome "mulher da vida" já denota que elas se aventuram no lugar abstrato onde imaginamos que se passa a "realidade", a aridez do mundo sem lei, o mundo como um nervo exposto, demandando coragem e sobrevivência. Quando íamos aos prostíbulos adolescentes, tínhamos a sensação de conhecer o lado mau da vida, o lado "real" que nos escondiam, conhecer quase um doce "crime". Eu fui a bordéis para conhecer a "vida".
Antes, as "decaídas" precisavam do casamento sagrado que as excluía. A micheteira antiga era uma necessidade fisiológica, uma extensão, um "puxadinho" das famílias, para compensar a tristeza do amor conjugal.
Hoje elas são "acompanhantes", "scorts", "promoters" e outros eufemismos. São malhadas, aerodinâmicas, sadias. Hoje, elas são digitais, milhares de flores se oferecendo na Web.
Antigamente, vivíamos uma "feérie" de gonorreias. Hoje, elas é que temem as tuas doenças. A camisinha te exclui, te faz ridículo com o pênis encapotado como um cachorrinho de suéter. A camisinha te humilha e ofende; com a camisinha, você é que é o perigo - ela, a saúde.
As ex-decaídas (hoje ascendentes) modernas não aspiram a uma "vida normal"; preferem a gelada aventura pela grana. Cada vez mais a prostituta é pura - a vida social é que se "bordelizou". A mulher romântica e a "perdida" infeliz são invenções dos homens, para minorar a insegurança que sentem diante das mulheres. Os fregueses de bordéis pagam as prostitutas para que elas não "existam".
A prostituta contemporânea não se envergonha do trabalho e não tem sentimento de culpa; talvez, apenas nojo... de você. Elas te olham de igual para igual, ou melhor, com uma finíssima superioridade. Ela são ativas, despachadas, tomam providências, tirando do homem seu maior prazer, que era o sentimento de superioridade moral em folga passageira - um habitante do mundo limpo viajando no mundo "sujo". Hoje, o sujo é você. Havia no velho putanheiro a vaga crença na recuperação das "infelizes". No ar dos prostíbulos antigos, flutuava um silêncio triste pela ausência de amor, por um visível sentimento de culpa que fregueses tentavam preencher com uma repugnante bondade. O diálogo melodramático d"antanho denotava seu desejo de parecerem mais "humanos":
"Por que você caiu nesta vida?" - perguntavam os hipócritas bordeleiros, antes do ato.
"Ah... meu noivo me fez mal, meu pai me expulsou..." - gemia a rapariga. "Mas, por que você não larga esta vida?", sussurrava o canalha, superior e sinistro, tirando as calças.
Por isso é que elas se apaixonavam pelos cafetões boçais, que as espancavam com jubilosas bofetadas.
Elas não pensam em se salvar pelo casamento. Esse papo da Pretty Woman já era; elas não sonham com algum babaca romântico que lhes dê a mão; muitas são até bem casadas e ajudam os maridos. Conheci uma professora de Ribeirão Preto que se prostituía regularmente no Rio, num famoso lupanar da Rua Senador Dantas, onde era muito desejada, orgulhosa como uma rainha-mãe.
Mais "anormais" que elas são os homens que as procuram. Trata-se de um teatro a dois, onde as gargalhadas, os gozos fingidos escondem o drama, a dor, a realidade.
Os putanheiros não querem saber da realidade. Assim, escondem de si mesmos o constrangimento da situação, com mentiras consentidas, como se fosse possível o encontro feliz entre classes sociais. Para eles, a prostituta é uma utopia, a prostituta é o socialismo.
Há algo de artista nas prostitutas; mais que atrizes, elas acreditam em sua obra. Nelson Rodrigues disse: "Não há atriz mais inepta ou medíocre que represente mal uma prostituta. A meretriz de teatro é perfeita como a Eleonora Duse". Mais artísticos ainda são os travestis, pois eles fazem arte séria e corajosa. O travesti tem orgulho de ser quem é; ele é uma afirmação de identidade. Há algo de clone no travesti, algo de robô, pois eles nascem de dentro de si mesmos; eles são da ordem da invenção poética.
Antigamente, ia-se ao bordel em busca de ilusões. O homem queria se sentir um sultão no harém. O putanheiro era o "sujeito" do lupanar. Hoje, ele é o "objeto". Há um vento gelado nos bordéis atuais - limpos, rápidos e eficientes como uma lanchonete. Há algo de enfermeira ou psicóloga na moderna "cocote". Há algo de McDonald"s nos puteiros de hoje.

A FAVOR & CONTRA

8 comentários:

Anne Lieri disse...

Eduardo,escolheu uma excelente cronica!Eu não assisti ao filme,mas Jabor sempre é polemico em suas cronicas.O que me incomoda nesse filme não é ele em si,mas outros filmes e histórias de brasileiros que poderiam ser contadas,ter patrocinadores publicos ou empresários,e não encontram espaço.Agora,a história de uma menina que escolheu ser prostistuta tem todo o patrocinio do mundo!Pode ser um filme excelente,mas pra mim não deve ser bom ser prostituta.Há perigos,humilhações,discriminações...não é uma profissão maravilhosa,mesmo que rentavel e,mesmo que as garotas de programa digam o contrário,não acredito nelas.Na verdade,gostariam de ter tido um lar,uma familia que as amparassem e seriam medicas,veterinarias,professoras...Jabor ás vezes aumenta o glamour da coisa!Bjs,

byTONHO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauro Castro disse...

Arnaldo Jabor, Nelson Rodrigues...mestres.
Há braços!!

Fanzine Episódio Cultural disse...

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Anderson Fabiano disse...

Há um limite muito tênue entre o glamour e a sordidez na vida das prostitutas e Jabor deu, com sua costumeira competência, quantas cores quis ao seu instigante texto. Coisa de cineasta-literato mesmo. Que bom.

Não me preocupa a questão moral da coisa, já escrevi sobre as “meninas de beira de rua”, fui ursinho de pelúcia de umas tantas (na adolescência) e, solene e secretamente, as reverencio. Não pela “profissão” em si, mas, pela coragem de enfrentarem o status quo com as soluções que conhecem. E quem quiser, que atire a primeira pedra.

Legalizar a profissão? Sei lá...
Pessoalmente, se pudesse (ou precisasse) escolher, ficava com as do passado. Aquelas com modelito de coisa má, pintura pesada, roupas extravagantes e pinta no rosto, feita com lápis. Mexiam mais com nosso imaginário juvenil e caiam como luvas na educação repressora e judaico-cristã daqueles tempos.

Essas de hoje, turbinadas em academias e mesas de cirurgiões plásticos, com ares de primeira dama, soberbas e dinheiristas são meras executivas do sexo e assim, a coisa perdeu a graça, o glamour... Uma solução restrita aos amantes incompetentes e outros medíocres de plantão.

Roubaram a maçã do paraíso.

Meu carinho,
Anderson Fabiano

Brasigrega disse...

Jabor quis ressaltar somente o lado glamuroso da situação. No caso da Bruna Surfistinha, ele até tem razão porque ela veio do seio de uma boa família, de classe média. Lí um depoimento dele dizendo que gostava do que fazia...
Enfim...Existe o lado negro da história. Este sim deveria ser contado em filme!
Também não assisti, mas uma amiga viu e não gostou!

Brasigrega disse...

Fiz uma postagem no meu blog sobre este assunto e citei Jabor e seu blog!
http://marciagrega.blogspot.com/2011/03/o-doce-veneno-da-satisfacao.html

Diogo Didier disse...

Perfeito! Parabéns pela indicação!