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13.8.10

Millôr Fernandes


Uma carta com história
Velhas querelas
Rio,
16.1.1980
Meu caro Guzzo,

agora, estranhamente, recebi sua carta do dia 8 (colocada no correio
dia 12). Senão já teria respondido, claro. Em primeiro lugar a moral
da história: uma publicação - como aliás qualquer tipo de empresa -
tem todo o direito de estabelecer suas regras, premissas e normas de
comportamento ou ação, desde que fundadas no bom senso, etecetera.
Senão, evidente, não vingam.

A sua posição - da revista - acho
perfeita e absolutamente válida. Mas... Mas, quais são os limites da
linguagem? Quem os traça? Claro, a revista pode traçá-los. Bunda não
sai. Mas corremos o risco de ficar esclerosados como o JB, que até
hoje grifa todas as palavras que define como gíria e chega ao
ridículo, assim, de grifar pra, por achar que isso é gíria (o
grifo é meu) de para.

Veja bem o caso em tela. (Estou
escrevendo em tela de propósito, tem gente que ainda escreve assim
e, claro, só os de sua própria geração entendem. Os mais novos
pensam que se está falando de cinema.) Minha frase: “Tanta plástica
no rosto, no seio, na bunda e ninguém aí pra inventar uma plástica
no caráter”.Que palavra eu usaria, meu caro Guzzo, sobretudo numa
época de permissividade? Nádegas? Olha, essa, sim, eu juro que
morreria de vergonha. Traseiro, pompom, bumbum, assento, posterior.
Não, eu tinha que usar bunda, a palavra certa, bonita, essa bonita
palavra africana.



Se eu usasse, por exemplo,
qualquer uma das palavras acima, estaria diminuindo a minha própria
língua, usando um eufemismo tipo gracinha (como sou um humorista
profissional me vedo o direito de fazer gracinhas) sem sentido,
i.e.força. Se eu usasse rabo, muito embora seja palavra extremamente
expressiva, você poderia dizer que eu estava forçando a barra (no
contexto Veja). Mas bunda, hoje, para usar uma expressão de uma
língua de que somos familiares, é uma household Word.

Mas,
muito bem, Guzzo, veja o perigo; vetamos bunda. Eu concordo. Todos
concordamos. Mas, se, de repente, precisamos nos referir à língua
bunda (se você escrever língua bunda, como eu escrevi aí, vai soar,
ao puritanismo natural da maioria dos leitores, muito mais forte do
que na minha frase vetada) dos angolanos? Diz. Deixo de
escrever?

Você há de achar estranho que eu dê tanta
importância ao fato bunda. Mas, geralmente, aceito com mais
facilidade as coisas mais "importantes" (tipo "vamos dar uma
descansada na Petrobrás" ou "dá pra parar de chatear um pouco o
Delfim?") onde se pode ver claramente os compromissos, os riscos e
os interesses, do que nessas outras, aparentemente
menores.

Sem contar que – não quero coroa de louros, não,
pode dar pros filólogos da Academia - me considero, no ramo uso de
palavras uma pessoa de grande sensibilidade, supostamente capaz de
trabalhar no fio da navalha, entre a extrema invenção e o clássico,
entre o perigo do chulo e a beleza do bem comportado, entre o máximo
de descontraimento e o máximo de precisão. Vivo disso, aliás. Você
sabe que não é a mesma coisa traduzir, botar em português, o
seiscentismo do Shakespeare e a ultima gíria de negros americanos.
E, no terreno vanguarda - com licença da palavra, desde O Cruzeiro
até O Pasquim, nós estávamos lá, inventando, reconstruindo, fazendo
permanecer viva a linguagem.

Meu maior título de glória
(quase ninguém sabe, você passa a ser dos poucos informados disso) é
ter praticamente inventado a expressão paca, de curso, hoje,
nacional. Está registrado no meu livro "Trinta anos de mim mesmo":
publicado pela primeira vez no O Cruzeiro em 1957 (!). O Ziraldo me
disse: "Essa não sai” .Saiu, e não aconteceu nada, porque pouca
gente conhecia a palavra. Que, aliás, dizer a verdade, eu não
inventei. Mas era, também, uma household word do meu grupo de
meninos no Meyer.Tão usada que fazíamos variações (o cansaço traz,
fatalmente, inovações linguísticas): paca, praca, páraca. Tudo
maneira de eufemizar euforicamente o proibidíssimo, praticamente
criminoso, na época: ”Pra caralho!” Hoje, com a permissividade, paca
nem terá surgido: qualquer freira diz, sem ruborizar, a
expressão-mãe.

Em suma, o que me parece claro é que as
palavras e expressões não são boas nem más em si mesmas. Dependem de
quem as usa, do contexto em que são usadas. De quem as usa porque,
se Tristão de Ataíde, de repente, começar a usar gírias e palavras
audaciosas vão pensar que ele ficou gagá. Mas, por outro lado, no
teatro atual, quando você sente que o autor quis dizer uma palavra
forte e não a disse por pruderie a coisa soa falsa. O personagem
quer dizer, o autor, mais recatado do que ele, não
deixa.

Quanto a mim, quanto a meu próprio comportamento
lingüístico, não tenha receio. Claro que, se eu desmunhecar, isso
poderá ter uma certa gravidade para VEJA. Para mim porém será fatal.
Sou uma célula de VEJA, mas o total de mim mesmo. Porém, Vecchio
uomo - sou mais antigo e mais experiente no setor do que a
revista.

Não tema, porém. Não paro de pensar, de ver. Não me
perco. Não estou me perdendo. Não vou me perder. Não tenho ânsias.
Estou com você (é evidente isso, em quase todos os órgãos da nossa
imprensa) embora você não tenha chegado a explicitá-lo: inúmeras
publicações estão como certas mulheres que, tendo adquirido o
direito de dar pra quem bem entendem se sentem na obrigação de dar
pra todo mundo. O resultado nós sabemos qual é: uma imprensa que
pensa ser liberta quando está, realmente, sendo apenas pornográfica.
Que pensa ser de esquerda quando já está querendo tirar a direita do
lugar, empurrando-a por trás, fechando a rosca. Uma imprensa
reivindicatória só da boca pra fora e longe do balcão. Está faltando
a coisa mais antiga, mais condenada desde há algum tempo: bom senso.
Não a mim, porém, meu caro Guzzo.

Em tempo: o alongamento da
resposta é pelo gosto da discussão. Saindo da bunda e permanecendo
mais ou menos nela - a posição de vocês de modo geral é boa, a
revista continua mantendo seu prestígio, a relação de vocês com meus
escritos bastante “democrática”, o que – espero, se estende, ou se
estenda também a todos os outros colaboradores de menor nome mas de
igual responsabilidade. Gaiatices, gracinhas e modismos
"revolucionários" é que não interessam a ninguém. Nem freio,
claro.

Precisamos discutir um dos detalhes importantes na
revista mas isso não cabe aqui.

Um abraço e que a venda de Veja continue abundante.


Enviada pelo José Luiz Fernandes

6 comentários:

Chica disse...

Realmente uma carta histórica e interessante...bem trazida!abração,chica

angela disse...

Sempre brilhante Millôr, poderiaamos completar a carta com o poema do Drummond.
beijos

angela disse...

Sempre brilhante Millôr, poderiaamos completar a carta com o poema do Drummond.
beijos

sonia a. mascaro disse...

Gosto muito de Millôr Fernandes. Millôr tem mesmo escritos e frases geniais!
E essa carta embora de 80, ainda é atual.
Mas achei a carta um tanto longa.... e me lembrei de uma frase de Blaise Pascal: "Se escrevi esta carta tão longa, foi porque não tive tempo para fazê-la mais curta."
Abraços.

Sylvio de Alencar. disse...

Entre o poeta e o Millôr sou mais o último, em gênero número e grau.

Lengo D'Noronha disse...

Ainda bem que o Millôr deixou a Veja e está processando a revista.
Não é lugar para um gênio.