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27.8.10

Crônica do Milton Ribeiro

Do autoritarismo



Não, o assunto não é futebol. É sobre algo que sempre me fascinou: o comportamento das massas, mesmo no microcosmo de um pequeno grupo em pé numa arquibancada.
O Chivas ganhava o jogo por 1 x 0 e estávamos todos nervosos ou apavorados com a possibilidade, naquele momento bem real, de perdermos a Libertadores para um time inferior. Foi quando meu vizinho acendeu um cigarro de maconha. Nada anormal num estádio de futebol  — o cheiro de maconha é uma das fragrâncias mais comuns nestes locais. Só que de repente um grupo de pessoas começou a berrar desorganizada e histericamente:
– Apaga, apaga, apaga essa merda!
Olhei para trás e vi um grupo de senhores cujos rostos pareciam ter saído de uma foto de milicos das muitas ditaduras que nosso continente viu durante os anos 60 e 70. Tinham as caras cortadas à foice, rostos irritados e seriíssimos como se estivessem apanhando de mexicanos. E se mostravam cada vez mais agressivos:
– Fracassado, viciado, maconheiro, filho da puta, vagabundo, traficante! Apaga esta bosta! Apaga agora, porra!
O fumante a meu lado, de olhos vermelhos certamente em função da derrota parcial de seu time, estava apavorado, sem saber se iam chamar a Brigada Militar ou se ia apanhar ali mesmo. Só que naquele exato momento Rafael Sóbis fez o gol de empate.
Como se tivéssemos ensaiado por horas, todos, mas todos os que estavam em volta e que não tinham sido torturadores no passado, ato contínuo se abraçaram ao maconheiro e passaram a gritar, pulando no mesmo ritmo:
– A-cen-de! A-cen-de! A-cen-de!
Éramos uns 20… Confesso não ter conferido a face dos milicos após a vingança.

NOTA: ( extraída de um comentário do Milton Ribeiro, no próprio post. AQUI )
miltonribeiro
on Aug 25th, 2010 at 3:47 pm
Antes que me acusem…
Não faço a apologia da maconha — há mais de 30 anos não faço “uso dela” –, mas faço a contra-apologia de quem se põe a policial quando é torcedor. Essas autoridades não constituidas costumam ser assumidas por gente fascista e intolerante.
No mais, acho que deveria ser descriminalizada, sim.

Um comentário:

angela disse...

Muito bom. Adorei.